ARTIGO | Graciela Nienov: Basta de violência doméstica!

Agência Trabalhista de Notícias - 9/10/2017, 11:10

Crédito: Vinícius Thormann/Divulgação

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A sociedade brasileira vive um momento de profunda transformação, e a luta das mulheres contra a violência e na busca por mais igualdade e respeito tem crescido de forma significativa nas principais cidades do país. Em pleno ano de 2017, ainda são impressionantes e absurdos os casos de violência envolvendo as mulheres, que por séculos viveram como se pertencessem aos homens. Entretanto, as mulheres cada vez mais lutam para ocupar seus lugares no mercado de trabalho, como chefes de família e diante da sociedade, e para alertar a todos da violência que, infelizmente, ainda alcança níveis alarmantes no Brasil.

Os números da violência diária sofrida pelas mulheres mostram que ainda há muito para conquistarmos no país em termos de respeito e cidadania plena. Muitas vezes só que o sobra para a mulher é a indignação com a falta de soluções para a violência, além da transformação pessoal que uma agressão causa a qualquer pessoa. Ainda mais quando sabemos que ainda existem homens com pensamentos primatas que veem a mulher como objeto pessoal, não aceitando que elas hoje conquistaram a sua liberdade pelo que significam e constroem na sociedade.

De acordo com estatísticas recentes, constatou-se que uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência no último ano. Só de agressões físicas, o número é alarmante: 503 mulheres brasileiras foram vítimas a cada hora. Esses números, que mostram o persistente problema da violência contra as mulheres no Brasil, fazem parte de uma pesquisa realizada pelo Datafolha e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança.

Os dados, divulgados recentemente, mostram que 22% das brasileiras sofreram ofensa verbal no ano passado, em um total de 12 milhões de mulheres. Além disso, 10% das mulheres sofreram ameaça de violência física, 8% sofreram ofensa sexual, 4% receberam ameaça com faca ou arma de fogo. E ainda: 3% ou 1,4 milhões de mulheres sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento e 1% levou pelo menos um tiro. A pesquisa mostrou que, entre as mulheres que sofreram violência, 52% se calaram. Apenas 11% procuraram uma delegacia da mulher e 13% preferiram o auxílio da família.

O pior, como revela a pesquisa, é que o agressor, na maior parte das vezes, é um conhecido das mulheres agredidas (61% dos casos). Em 19% das vezes, eram companheiros atuais das vítimas e em 16% eram ex-companheiros. As agressões mais graves ocorreram dentro da casa das vítimas, em 43% dos casos, ante 39% nas ruas.

Assédio

O levantamento do Datafolha apontou que 40% das mulheres acima de 16 anos sofreram algum tipo de assédio, o que inclui receber comentários desrespeitosos nas ruas (20,4 milhões de vítimas), sofrer assédio físico em transporte público (5,2 milhões) ou ser beijada ou mesmo agarrada sem consentimento (2,2 milhões de mulheres).

Os assédios mais graves aconteceram entre adolescentes e jovens de 16 a 24 anos e entre mulheres negras. Só entre as vítimas de comentários desrespeitosos, 68% eram jovens e 42% mulheres negras. Já em assédio físico em transporte público, 17% eram jovens e 12% negras. E esse tipo de violência todo mundo percebe. Cerca de 66% dos brasileiros presenciaram uma mulher sendo agredida fisicamente ou verbalmente em 2016. Entretanto, em vez de o cenário ter melhorado, a sensação da maioria dos brasileiros (73%) é de que a violência contra a mulher aumentou ainda mais na última década. A maior parte das mulheres (76%) acreditam no mesmo

Essas dados acima demonstram o quanto ainda precisamos avançar na questão do combate à violência contra a mulher. Não podemos mais nos calar. Na região oeste de Santa Catarina, neste mês de setembro, vivenciamos casos absurdos, onde os companheiros mataram suas esposas ou namoradas queimadas a tijolada, sufocadas, entre outros tipos de agressão, e na maioria das vezes os indevidos ficaram soltos nas ruas de suas cidades, podendo cometer violência contra outras mulheres.

E toda essa violência acontece mesmo com o país avançando na elaboração e aprovação de leis importantes para combater este mal, como a Lei Maria da Penha. Demos importantes passos, mas ainda há um preconceito generalizado quando tocamos na pauta da violência doméstica, e lamentavelmente, na maioria das vezes, as mulheres ainda se sentem culpadas pela agressão sofrida. Para piorar, a legislação brasileira possui brechas que permite que homens continuem soltos e mantenham suas agressões e ameaças.

A mudança de cultura dos cidadãos e uma maior conscientização da sociedade, principalmente em cidades pequenas, tem sido uma barreira na busca da liberdade de nossas mulheres. Precisamos nos livrar do preconceito, e muitas mulheres sentem isso. Quando todas as mulheres conseguirem se libertar desse preconceito que há décadas cultivam, de geração em geração, os homens serão obrigados a entender e respeitar. Os covardes que utilizam de sua força, tanto verbal como física, para manter as mulheres como suas prisioneiras, quando se confrontarem com a união feminina, certamente mudarão de opinião, mesmo que seja pelo medo de irem para a cadeia.

Nós, mulheres, precisamos perder o medo. Só assim baixaremos esses índices que são vergonhosos para a nossa sociedade. É hora de termos coragem para não perdemos mais nossas amigas, nossas mães, nossas filhas. Precisamos ter coragem para dizer basta.

* Graciela Nienov é presidente nacional da Juventude do PTB