ARTIGO | Paulo Frange: A pandemia, o populismo e as desigualdades sociais

Agência Trabalhista de Notícias 9/07/2020, 9:14


Imagem Crédito: André Bueno/CMSP

A pandemia do coronavírus tem eviscerado problemas históricos da nossa sociedade global, que apostou nesse modelo como capaz de gerar riqueza empregos e renda, e fomentar o comércio mundial com as produções de cada uma das nações do planeta. A globalização não teve o mesmo resultado positivo, quando enfrentamos juntos, uma pandemia, cuja última lembrança data de 1918, bem distante dos conceitos atuais.

O sucesso do enfrentamento mostrou que depende também de opções políticas e dos regimes de governança implementados em cada país. Recentemente, o Nobel da Economia Jeffrey Sachs apontou situações curiosas, quando enfrentamos um inimigo comum, o CORONAVÍRUS. Além da qualidade dos sistemas de saúde, da gestão da infraestrutura instalada, a capacidade de resposta a uma pandemia exibe diferenças significativas nos resultados, quando dependemos do comportamento dos líderes políticos dessas nações. Resultados bons e até catastróficos foram encontrados na dependência da resposta da sociedade às orientações desses governos.

O exemplo mais curioso está nos resultados de três países, Estados Unidos, Brasil e México, que juntos acumulam 46% das mortes decorrentes do novo coronavírus, mas que também juntos, possuem apenas 8,6 % da população mundial.

“Uma das hipóteses explicativas para essa tragédia humanitária é a conjugação de populismo e desigualdade, e a qualidade da liderança política aponta um forte impacto sobre a condução da pandemia”, dizem pesquisadores da Escola de Economia da FGV-SP.

Por mais que a ciência tenha mergulhado nesse tema vital para a humanidade, nada se mostrou mais eficaz até o momento, e já se passaram seis meses, que distanciamento social, higienização das mãos e uso de máscaras, são fundamentais. E, nesses três países, há uma obsessão por descumprir essas regrinhas por parte dos seus comandantes. Esse comportamento também é repassado para seus seguidores ideológicos, e o que é pior, desinforma a sociedade que não tem mais referência para se orientar.

Sem vacinas e remédios eficazes, o enfrentamento da pandemia como a do coronavírus depende da capacidade da liderança política, de coordenar as ações, sobretudo de conduzir a população a um comportamento coletivo que reduza os riscos de propagação da doença. Bons exemplos não faltam, como Nova Zelândia, Alemanha, Coreia e outros.

A receita certa para a pandemia está na liderança política capaz de construir um forte laço de confiança com a população, de forma a reduzir comportamentos irracionais que aumentam o risco de toda a sociedade.

“Ao negar a virulência da pandemia, desprezar a ciência, boicotar aqueles que estão levando o combate da Covid-19 a sério e estimular a população a não tomar os devidos cuidados com a doença, cada um desses líderes vem dando sua parcela de contribuição para quase metade das mortes relacionadas ao Covid-19 que ocorreram em todo o planeta, até o presente momento”, como indica a alta comissária de Direitos Humanos da ONU.

Apesar de sua pujança econômica, os Estados Unidos são o mais desigual entre os países desenvolvidos. Da mesma forma, o Brasil, embora se encontre entre as dez maiores economias do mundo, ocupa uma constrangedora posição entre os países mais desiguais do mundo.

As pesquisas em São Paulo mostra que o número de infectados é 4,5 vezes maior entre aqueles que não têm o primeiro grau completo do que entre aqueles que têm o ensino superior completo. A educação sempre foi frágil no Brasil. E, sabíamos que seria um diferencial nessa luta contra o coronavírus.

“No mesmo sentido, aqui mesmo na capital, pesquisa apontou que 19,7% dos que se declararam negros e 14% dos pardos, são soropositivos. Esse número cai para 7,9% para os brancos. Fica claro então que, se o vírus não discrimina, as vítimas preferenciais são a desigualdade e populismo e têm classe e cor”, afirma Dr. Oscar Vilhena Vieira, Professor de Direito da FGV Direito SP, e doutor em ciência política pela USP.

Seremos lembrados por isso! Também seremos cobrados por tudo isso! O novo normal terá que ser repensado exaustivamente. Teremos que reinventar uma utópica globalização sem desigualdade social. Será uma tarefa difícil para o capitalismo. Mas, com certeza, não será o coronavírus a nossa última pandemia.

Que mundo queremos para o pós-pandemia??

* Paulo Frange é médico e vereador no município de São Paulo pelo PTB

Artigo originalmente publicado no portal da Câmara Municipal de São Paulo em 07/07/2020