Assembleia será pautada pela CPI até o final do ano, lamenta Lara

PTB Notícias 10/08/2009, 8:26


O presidente do PTB no Rio Grande do Sul, deputado estadual Luís Augusto Lara, avaliou, em entrevista hoje (10/08) ao Jornal do Comércio, as discussões na Assembleia Legislativa até o final do ano serão pautadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar irregularidades no governo do Estado.

Ele entende que isso é negativo, pois a apuração deveria ocorrer paralelamente ao debate de outras questões.

“No primeiro semestre, a Casa não fugiu da miudeza, não tocou nos grandes temas.

E, no segundo semestre, parece que também não.

Perde o Estado como um todo”, critica.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Lara avalia que a inclusão de dois deputados estaduais na ação do Ministério Público Federal (MPF) enfraquece a Assembleia, explica por que o PTB continuará apoiando a gestão de Yeda Crusius (PSDB) e fala sobre a posição que o partido adotará na CPI.

Também relata a estratégia da sigla para as eleições de 2010 – o PTB vai priorizar a disputa nos legislativos e irá compor aliança para a majoritária – e revela o projeto do partido de chegar ao Palácio Piratini em 2014.

Confira a entrevista:Jornal do Comércio – Com a instalação da CPI, como o senhor projeta o debate na Assembleia Legislativa neste semestre?Luís Augusto Lara – Deve girar em torno da CPI.

Serão quatro meses, até o final do ano, falando disso na Assembleia.

É uma pena para o Estado, porque o Parlamento deveria discutir “também” a CPI e não “só” a CPI.

No primeiro semestre, a Casa não fugiu da miudeza, não tocou nos grandes temas.

E, no segundo semestre, parece que também não.

Perde o Estado como um todo.

Com o Executivo fragilizado, o Legislativo também fica fragilizado.

JC – E a inclusão de dois deputados estaduais – Frederico Antunes (PP) e Luiz Fernando Záchia (PMDB) – na ação de improbidade administrativa do MPF?Lara – Fragiliza a Casa.

A gente não sabe quais indícios existem contra os deputados.

Temos que buscar a luz no processo, tirar o sigilo judicial é importante.

E dar espaço ao contraditório.

Mas fragiliza a Casa, que nesta legislatura passou por um momento muito difícil com a fraude dos selos, que enfraqueceu a imagem do Legislativo.

JC – Qual a posição do PTB em relação ao governo do Estado após a manifestação do MPF?Lara – Vamos ajudar a esclarecer os fatos, buscar transparência a partir da dúvida levantada pelo MPF.

E ajudar na governabilidade, com lisura e transparência.

JC – Mesmo com a ação do MPF, o plano do partido de só cogitar a saída do governo em 2010, visando às eleições, está mantido?Lara – Está mantido.

O MPF levantou um fato e nós, como deputados da base, vamos fazer a nossa parte de ajudar a governar e tornar as coisas transparentes.

A ação do MPF não significa que a Justiça vá acatar a denúncia.

Sair agora seria sentenciar o governo sem a chance do contraditório para clarear os fatos.

E, se há dúvida em relação a algum ato, vamos esclarecer.

JC – Como será a postura do PTB na CPI?Lara – De isenção.

Uma posição quase de magistrado.

Quem mais quer isenção e transparência neste momento é o governo.

Queremos que as pessoas que cometeram algum crime sejam punidas, mas quem não praticou que não pague por isso.

JC – O PTB faz parte do governo municipal de José Fogaça (PMDB), do estadual com Yeda Crusius (PSDB) e do federal com Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Está em todos, mas não como protagonista.

Lara – PP e PMDB são assim também.

O PDT era, mas saiu do governo Yeda.

Infelizmente o que estamos vendo hoje em dia é uma verdadeira salada de frutas da política brasileira, uma cultura que foi feita ao longo dos anos e que também foi posta pelo próprio presidente Lula.

Ele foi cooptando partidos pela coalização do governo.

JC – Mas em nível estadual, qual é a marca do PTB?Lara – O PTB está buscando uma marca.

Os trabalhistas perderam muito da sua identidade.

Não posso falar pelo PDT, mas, pelo PTB, posso.

O que falta na política nacional, estadual e, por consequência, na municipal e estudantil é coerência entre o que pregávamos e fazemos.

O principal problema da política brasileira hoje é a falta de coerência e de capacidade de indignação no povo.

JC – Como o PTB está buscando uma marca no Estado?Lara – Com a profissionalização do partido.

Criamos um fundo, com a colaboração de todos os cargos de confiança (CCs) do PTB, inclusive, do Interior, para que o nosso partido se profissionalize.

Esse fundo vai ser empregado numa plataforma de comunicação atualizada para o PTB se comunicar com os seus filiados, eleitores e simpatizantes.

E, para divulgar as campanhas do partido, como a de emprego para portadores de deficiência.

Além da profissionalização e organização, temos uma marca muito forte na ação social, a solidariedade.

JC – Qual é a estratégia do PTB para as eleições de 2010?Lara – Temos um plano de metas e planejamento estratégico para 2010, 2012 e 2014.

Em 2010, vamos participar das eleições majoritárias – ainda não sabemos se com vice ou senador.

E vamos aumentar em 50% as nossas bancadas estadual e federal, elevando em 50% o número de candidaturas aos legislativos.

JC – Qual é a prioridade?Lara – Aumentar a participação legislativa.

Tivemos 42 candidatos concorrendo a deputado estadual em 2006, hoje temos 65.

Para deputado federal, tivemos 27 candidatos, hoje temos 34.

Ainda não chegamos a 50%, mas trabalhamos para isso com encontros regionais do partido.

Não se pode falar em majoritária se não tiver uma chapa proporcional estruturada e forte.

A sigla com 100 candidatos a deputado estadual para um candidato a governador representa 100 lideranças trabalhando em 100 municípios.

JC – Qual será o nome do partido para a disputa majoritária – governo e senado?Lara – Temos 75 prefeitos e vice-prefeitos, deputados e vários ex-secretários de Estado.

Não posso citar nomes, seria até indelicado.

JC – Além do partido da governadora Yeda Crusius (PSDB), PT e PMDB querem o apoio do PTB para 2010.

Já há algum encaminhamento sobre isso?Lara – Qualquer decisão seria desfavorável para nós.

Fazer qualquer tipo de encaminhamento na majoritária seria, primeiro, feio e desleal, com a governadora.

JC – PSB, PDT e PP falam em uma nova via ao Palácio Piratini em 2010, com o PTB.

Essa alternativa é mesmo possível?Lara – A esta altura, tudo é possível.

Não podemos excluir possibilidades nesse momento.

Mas só vamos decidir isso no ano que vem, quando iremos avaliar a permanência ou não no governo, já com dados mais concretos, isto é, se a governadora será ou não candidata.

JC – E a partir daí?Lara – Além de participar da majoritária, queremos passar de cinco para oito deputados estaduais.

Em 2012, vamos ter 75 prefeitos e vice-prefeitos e mais 90 que concorreram aos legislativos estadual e federal que não se elegeram.

Então, iremos com 160 candidatos a prefeito e vice-prefeito.

Com isso, devemos aumentar em 50% o número de vagas nas prefeituras e câmaras.

E vamos concorrer com candidatura própria à prefeitura de Porto Alegre – inclusive já colocamos isso ao prefeito José Fogaça (PMDB).

E, em 2014, com a prefeitura de Porto Alegre, teremos candidatura própria ao governo do Estado.

JC – O objetivo do PTB é chegar ao Piratini em 2014?Lara – Não descarto 2010, mas seria uma circunstância, uma eventualidade.

Em 2014, é uma meta clara e específica.

É o nosso planejamento.

JC – E qual é o papel do senador Sérgio Zambiasi (PTB) nas eleições de 2010? Ele não concorre ao Senado.

Lara – Para o que o Zambiasi vier estará ajudando o partido.

O que não pode é o partido esperar pelo Zambiasi para se organizar.

Ele tem o direito de escolher o que ele quer ser.

JC – E tem direito a não concorrer?Lara – Zambiasi é o coringa.

Se ele escolher qualquer cargo, ele ajuda, e muito.

Se ele escolher não ir a cargo nenhum, certamente vai estar nas campanhas nos ajudando.

O que não pode é o partido ficar, como esteve por muitos anos, na dependência dele.

JC – Qual sua avaliação da participação do PTB nesses três anos de governo Yeda.

Lara – O PTB tem uma participação ínfima em termos de cargos.

Mas é equivalente ao que tem na Assembleia Legislativa – de quatro a cinco votos.

Se não estamos em secretarias e órgãos de ponta do governo, também não somos a maior bancada.

O PTB tem ajudado, mas não somos a linha de frente do governo, nem no Executivo, nem na Assembleia.

Fomos, em determinado momento, a linha de frente do governador Germano Rigotto, quando tínhamos quatro secretarias de ponta.

Secretaria de Turismo e de Administração (que o partido tem no atual governo) não são secretarias de ponta.

JC – O senhor acha que o diálogo com o governo era melhor naquele período?Lara – Nosso diálogo com a governadora Yeda é bom.

O que vem truncando algumas coisas dentro do governo é que, quando algo é formatado e vai avançar, ocorrem algumas mudanças e tem que começar tudo de novo.

Na Casa Civil, isso foi muito comum acontecer.

Teve Záchia, depois Cézar Busatto (PPS), e agora (José Alberto) Wenzel (PSDB).

Em três anos, três chefes da Casa Civil.

Essa é a maior dificuldade.

JC – Houve muitas mudanças no secretariado.

Lara – A descontinuidade e a troca de pessoal não é boa para a gestão.

Mas, enfim, no entendimento do governo foi necessário.

Tem o que é ideal e o que é possível.

O governo está fazendo o que é possível.

JC – Qual sua avaliação do governo Yeda?Lara – Em termos de gestão, desde que sou deputado, nunca vi nenhum governo pagar as contas em dia.

E o governo Yeda está pagando as contas em dia.

Os recursos estão chegando na ponta, como há muito tempo não víamos.

JC – Por exemplo.

Lara – Recursos para pagar o transporte escolar, o dinheiro para a saúde, que também está chegando, a verba para a merenda escolar, para a ação social.

Enfim, o dinheiro está chegando na ponta.

As estradas estão avançado com as obras em andamento.

Em termos de gestão, tem muito pouco a acrescentar.

JC – E na parte política?Lara – Em termos de política, o governo tem fragilidades.

Mas o que interessa ao povo é a gestão.

A política é o que harmoniza os relacionamentos.

E é essa harmonia que está fazendo falta no governo.

JC – Ainda falta articulação?Lara – Falta harmonia, tanto com a sua base, quanto com a Assembleia, a oposição, a população, as entidades de classe, os funcionários públicos.

Buscar essa harmonia seria vantajoso ao governo.

As coisas não estão claras para a população e para os funcionários públicos em vários temas.

E, com isso, se ameaça por exemplo, um plano de carreira para o funcionalismo público.

Para que ameaçar? Ou faz um plano e mostra para todos e se vê se há condições de votar ou não se faz.

O que não pode é ficar ameaçando: “Olha que agora vai ter o plano”.

Tem gente que não dorme de noite, trabalhou mais de vinte anos e pensa em se aposentar mais cedo porque, se trocar o plano de carreira, está ralado.

O PTB tem procurado somar nessa questão de harmonizar mais.

JC – No âmbito municipal, na prefeitura de Porto Alegre, a Polícia Civil apurou o pagamento de propina de R$ 100 mil na Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que é comandada pelo PTB.

Qual foi o encaminhamento que o partido deu a esse episódio?Lara – Solicitei ao presidente metropolitano do PTB, (José Carlos) Brack, que abrisse sindicância e que afastasse essa pessoa (o então assessor jurídico da SMS, Marco Antônio Bernardes), que diz que foi em nome do partido, conforme ele, solicitar auxílio e recursos (a uma empresa que prestava serviço de segurança para a secretaria).

Os recursos que o partido solicita são para o período eleitoral e são feitos somente pelo seu presidente a eventuais empresas ou empresários.

JC – E como ficou resolvido o caso?Lara – É bom aproveitar para deixar isso claro.

Ninguém na esfera estadual ou municipal, que não seja o presidente, está autorizado a solicitar recursos ao partido.

Qualquer outra pessoa que for solicitar recursos em nome do partido está desautorizada.

Provavelmente, esteja solicitando para ela.

Em nome do partido, só fala o presidente.

Isso é importante.

Recebi do Brack a informação de que ele abriu a investigação e a sindicância, que afastou essa pessoa do partido.

JC – Então a questão foi resolvida internamente pelo partido?Lara – Ele foi afastado do cargo (na Secretaria de Saúde).

Não está mais na prefeitura de Porto Alegre.

Pedi, em uma reunião que fizemos com a metropolitana, o afastamento dessa pessoa do partido até que ele prove que não era aquilo (recebimento de propina) o que aconteceu.

Porque, pelo que vimos, pelo que tivemos condições de ver, foi montada uma situação para pegá-lo em um flagrante.

O que parece, no primeiro momento, é que houve um flagrante.

Parece, porque eu não ouvi, a gravação não tem áudio, só aparece a imagem.

À primeira vista – não quero fazer prejulgamento -, dá a entender que foi isso que aconteceu.

JC – Mesmo sem o áudio, a conclusão da investigação da Polícia Civil sobre o caso, depois de ouvir os envolvidos e ver o vídeo feito pelo diretor da empresa que prestava serviços, é de que houve pagamento de R$ 100 mil em propina na secretaria.

Lara – É um indício fortíssimo.

E demos esse encaminhamento, pelo que me disse Brack, presidente municipal.

PerfilLuís Augusto Lara tem 40 anos e é natural de Bagé.

Aos 17 anos se tornou empresário, comandando um restaurante.

Depois, passou a trabalhar com eventos, primeiro na cidade natal e depois em municípios da região e até em Punta del Este (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina).

Aos 20 anos, já empregava algumas dezenas de pessoas em seus negócios e era bastante conhecido, o que lhe rendeu convites para ingressar na vida política.

Como seus amigos eram do PDS, filiou-se à sigla em 1990.

Concorreu a vereador em 1992 e obteve vaga na Câmara Municipal.

Lara destaca sua campanha pela redução do salário dos parlamentares neste mandato.

Em 1997, o PDS já tinha virado PPR (hoje é PP), e Lara, reeleito vereador, decidiu sair do partido e fundar o PTB em Bagé – está na sigla até hoje.

Em 1998, elegeu-se deputado estadual e foi reeleito em 2002 e 2006.

O deputado estadual se licenciou do Parlamento para assumir a Secretaria de Estado do Turismo, Esporte e Lazer, no governo do peemedebista Germano Rigotto (2003-2006) e no início da gestão de Yeda Crusius, em 2007.

Retornou à Assembleia em fevereiro de 2008.

No mesmo ano, foi eleito presidente estadual do PTB, para comandar a sigla de 2009 a 2012.

* Agência Trabalhista de Notícias com informações do Jornal do Comércio