Confira entrevista do jornal Gazeta do Sul com Roberto Jefferson

PTB Notícias 9/05/2007, 11:44


Confira entrevista publicada pelo jornal gaúcho Gazeta do Sul, em sua edição dos dias 28 e 29 de abril:Gazeta do Sul – Passados quase dois anos da sua entrevista que deflagou o escândalo do mensalão, como o senhor vê a política brasileira?Roberto Jefferson – Continuo enxergando o governo Lula sem projeto.

É um governo que já tem quatro anos e quatro meses e ainda não vi nada sólido.

A não ser o Bolsa-Família, que nem do PT é.

É um programa do Banco Mundial para a América Latina para reduzir a crise social da população, que fica pobre pela brutal concentração de renda na mão de rendistas, que vivem da agiotagem, e dos banqueiros nacionais.

Todo esforço, toda energia gerada pelo trabalho nesse País vai para pagar juro para agiota.

Os bancos estão cada vez mais ricos enquanto o País vive uma enorme crise social.

Não vejo esse governo com projetos.

Por que o PMDB compõe a base nacional do Lula? Não sei.

Qual programa une esses partidos? O que junta o Valdemar da Costa Neto com o Lula? Não sei, não sei.

O que tem de filosófico, de programático nessa união? Nada.

Só troca de cargo, toma lá dá cá.

E ainda estavam brigando.

Estou ouvindo falar em partilha, divisão, mas não num programa de governo.

Nossas escolas públicas estão uma vergonha.

Rio Grande do Sul e São Paulo se saíram bem, mas nos demais estados é terrível.

Educação não é o programa do Lula.

Independência energética também não.

Gazeta – E o Programa de Aceleração do Crescimento?Jefferson – Depende de crescimento econômico.

Primeiro o País tem que crescer de 4% a 5% ao ano para sobrar dinheiro para o PAC.

Não há programa que una.

Não fomos chamados a pensar um projeto nacional.

É tudo em função de crises.

O Brasil se ajusta de acordo com as crises.

Veja a crise do gás.

Faz um ano que o Evo assumiu a Bolívia e o Brasil não criou alternativa.

O que é governo Lula? Não sei.

Está sempre apagando incêndios.

Infelizmente só vejo projeto de poder.

Essa CPI do Apagão Aéreo, por exemplo, é conversa fiada, não vai dar em nada.

Os tucanos já se acertaram com o PT.

Querem o fim da reeleição, mandato de cinco anos, o Serra em 2010 e Lula voltando em 2015.

Isso não é programa para o Brasil.

É programa para o PSDB e o PT.

Se pensa em reforma política, mas não há reforma na educação, na saúde, na energia.

E o que me assusta é que está todo mundo cego, todo mundo mudo.

Não tem oposição.

A oposição se alugou.

Por que todo mundo está com o Lula? Por cargos, interesses.

Gazeta – E o PTB, por que está com Lula?Jefferson – Por cargo.

Interesse.

Toma lá dá cá.

O que vamos fazer? Sou voto vencido.

Estou trabalhando.

Não é meu sentimento, mas devagar a gente vai chegando.

Na época do Collor eram 12 ministérios, no Fernando Henrique 24 e hoje, com Lula, já são 37.

Pra quê? Pra dar emprego pra todo mundo.

Pra que um partido quer nomear diretor da Petrobras, da Eletrobrás? Qual programa de partido justifica isso? Algum deles tem política voltada a esse setor? Não.

É para irrigar os cofres do partido.

Gazeta – Tudo isso só em função de cargos ou aquilo que o senhor denunciou continua acontecendo?Jefferson – Continua, embora o mensalão tenha acabado.

O que era o mensalão: o PT fazia arrecadação dos recursos, repartia entre os partidos da base, que por sua vez davam mesada aos deputados para votar no governo.

Era aluguel parlamentar.

Isso não acontece mais.

Não há clima.

Mas essa troca de interesses, empresas públicas agindo como entidades de financiamento dos partidos, isso tá acontecendo e a imprensa já está colocando isso.

Gazeta – Que avaliação o senhor faz do período das denúncias até hoje?Jefferson – Acho que valeu a pena.

Hoje vocês têm uma visão clara disso.

Está todo mundo com muito mais cautela.

Outro dia tive uma conversa com líderes do PMDB e eles disseram que nesse jogo político o Lula não está querendo aceitar ninguém para dirigir a Petrobras, a Eletrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa Federal.

E a pressão dos partidos sobre ele está sendo brutal.

Todo mundo quer porque é filé e Lula não quer porque sabe no que vai dar.

Vai dar Visanet outra vez.

Ele sabe que a coisa vai crescendo, uma loucura.

Ano que vem tem eleição municipal e tem que ter dinheiro para financiar vereador e prefeito.

Ele não quer.

Lula está com um medo louco porque a imprensa está em cima.

Mais até do que a Abin, que analisa currículo por currículo.

Há uma atenção social muito grande para esse jogo que está sendo jogado e não é em favor do Brasil.

E há outra coisa.

As denúncias tiveram conseqüência, tanto que já há dois processos enormes no STF, um com 40 e outro com 11 pessoas denunciadas.

Gazeta – O senhor acha que o Congresso foi corporativista em alguns casos?Jefferson – Não creio.

Houve um acordo.

Como as investigações tinham que parar porque com o negócio dos fundos de pensão ia chegar no PSDB, nas privatizações tucanas, foi feito um acordo por cima: vamos cassar o Jéfferson e o Zé Dirceu.

O Pedro Corrêa foi cassado não pelo mensalão, até porque o Janene esteve muito mais envolvido que ele e foi absolvido.

O Corrêa já estava com a corda no pescoço, tinha ido a plenário duas vezes para ser cassado.

Foi cumprido o acordo que previa a cassação dos protagonistas da crise.

O restante foi protegido.

É corporativismo? É, mas quem não é corporativo? O gambá protege o gambá.

O corcunda protege o corcunda.

Gazeta – Por que o senhor acha que esse escândalo todo não atingiu o presidente Lula?Jefferson – Lula foi blindado porque não participou.

Gazeta – Mas ele sabia?Jefferson – Hoje ele sabe e a preocupação é de não deixar acontecer de novo.

Ele anda dizendo à boca pequena: “Não tem mais jeito de eu dizer que não sei, que não vi.

Naquela época o povo acreditou que eu era cego, hoje não.

Não cola mais.

” Mas creio que no episódio do mensalão o presidente estava vendido.

Na primeira eleição fez blindagem em torno de si colocando a turma do Zé Dirceu, Gushiken, Palocci, Genoíno, Silvinho Pereira e Delúbio.

Era um cinturão em torno do Lula.

Esse esquema foi montado nas costas do presidente.

Como não era muito afeito à administração, nunca havia administrado nada, não viu que isso tinha acontecido.

Hoje não, hoje tudo passa por ele.

Gazeta – Então não há mais um José Dirceu no governo?Jefferson – O Zé Dirceu foi nefasto porque ficava na Casa Civil.

A Casa Civil é uma espécie de sacristia.

Fica colada ao altar, que é o gabinete do presidente.

Se você peca na sacristia contamina o altar.

E o Zé Dirceu pecava.

O presidente Lula só se salvou quando colocou a Dilma lá.

É uma mulher digna, honrada, séria, que limpou o jogo.

Com ela não tem conversa fiada, é governo.

O PAC é uma idéia especial da Dilma.

Ela não foi conspirar poder, foi tentar construir um modelo.

A Dilma constrói alguma coisa de governo e o Zé Dirceu construía poder.

Gazeta – E o que ele está colhendo hoje?Jefferson – Sofrimento.

Ele está sofrendo.

José Dirceu foi cassado duas vezes na vida: como líder de esquerda à época da revolução e agora com aquela biografia, como chefe da corrupção.

O Ali Babá e os 40 ladrões.

Gazeta – E como está a vida de Roberto Jéfferson depois do escândalo?Jefferson – Como presidente nacional do PTB estou fazendo contatos na base.

Tenho viajado o Brasil todo.

Estou construindo o partido, procurando afastar o PTB desse trato fisiológico com o poder.

Na vida o homem não pode ser um nefelibata.

O cara que só vive nas nuvens, filosofando, não põe o pé no chão.

Mas não pode ser só feijão, fincado na terra.

Tem que ser um misto do sonho e da realidade.

Só feijão ele fica com flatulência, fazendo barulho, cheirando mal.

Só feijão não dá certo.

Quando é só feijão, como foi o primeiro mandato do Lula, o cheiro escapa e todo mundo percebe.

Ouve o barulho e sente o cheiro da lambança.

Estamos procurando construir um partido que tenha o sonho e o feijão, que atraia as pessoas não só pela barriga, mas também pelo sentimento.

Só pela barriga gera uma relação muito perversa.

Gazeta – O PTB se prepara para a eleição nacional?Jefferson – É o meu sonho.

Estamos nos preparando para os estados também.

Aqui no Rio Grande estamos buscando um Sérgio para concorrer a governador.

Pode ser Sérgio Moraes ou Sérgio Zambiasi.

O PTB gaúcho já tem calo nas costas de tanto levar a bandeira dos outros.

É hora de levarmos os nossos ideais.

Temos dois nomes capazes de empolgar.

Agora estamos levando a bandeira da Yeda, que é pesada de puxar.

É difícil puxar a madame com aquela pose de rainha.

Mas uma coisa é certa: de qualquer jeito vai ter um Sérgio disputando o Piratini pelo PTB em 2010.

Estamos preparando também a eleição nacional.

Só tem torcida o time que entra em campo.

Se não jogar bola, meu irmão, não enche arquibancada.

Não adianta ficar no banco.

Gazeta – Quem seria o nome hoje do PTB? Fernando Collor?Jefferson – Pode ser um nome.

Ele não está me autorizando a dizer isso, até porque Collor precisa de um processo para se recompatibilizar com a opinião pública.

Ele está fazendo isso, é um caminho lento.

Ele diz que o mandato é para restaurar a biografia.

Collor é um nome que pode empolgar para a eleição presidencial.

Por enquanto esse é o nome que temos.

Mas precisamos buscar gente de dentro de casa, que leve para todo o Brasil a nossa mensagem.

Uma eleição presidencial ajuda o PTB a fazer fácil uma bancada com 50 deputados e 12 senadores.

Gazeta – Depois das denúncias o senhor chegou a se encontrar com Lula?Jefferson – Nunca mais.

Nunca mais vi ele nem o Zé Dirceu.

Só pela TV e pelos jornais.