Em entrevista, Braz fala sobre instabilidade política e crise econômica

PTB Notícias 16/02/2016, 10:44


O cenário econômico brasileiro afasta os investidores e gera insegurança entre os que tentam se manter no mercado.

Estas incertezas imobilizam o setor produtivo, que tenta encontrar fórmulas de manter as suas atividades, independentemente desse cenário.

A reedição do ‘conselhão’ e a abertura de linhas de crédito no valor de 83 bilhões de reais, anunciadas pela presidente Dilma Rousseff, não animaram os empresários, que ainda esperam que o governo faça o dever de casa, enxugando a máquina administrativa e diminuindo o custo do estado.

A possível volta da CPMF e novos impostos também não agradam a ninguém, além do próprio governo.

Mas a aprovação do imposto não será fácil, já que falta apoio para essas medidas, até mesmo entre os petistas, partido da presidente.

Esse diálogo complicado com o Congresso Nacional é apontado como uma das principais causas para o agravamento da crise no país, junto com ingredientes como a corrupção, os gastos excessivos da máquina e o descontrole total das ações de governo.

Para o empresário e deputado estadual Braulio Braz (PTB-MG), com empresas em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, essa necessidade do governo em fazer receita aumentando impostos, acaba causando mais estragos à economia, com empresas fechando as portas por não aguentar o peso da carga tributária.

O resultado é diminuição na arrecadação, aumento do desemprego e da instabilidade política.

Leia a entrevista de Braulio Braz à Revista Viver Brasil na íntegra: As medidas que o governo Dilma tem anunciado para estimular a economia estão alterando os ânimos e melhorando o humor do setor produtivo?Estamos vivendo um momento de insegurança institucional muito grande.

A falta de credibilidade do governo traz insegurança para a sociedade como um todo.

Esse é um problema sério.

A impopularidade da presidente Dilma vem do desmando na economia e das intervenções.

Essas medidas é que levaram a esse caos.

Nós estamos sofrendo com os problemas também em função da necessidade de o governo fazer receita, aumentando os impostos.

Tem ainda o estrago causado na Petrobras, uma empresa que sempre foi uma bandeira, um patrimônio para o país.

Os desmandos na Petrobras trouxeram o enfraquecimento da empresa e agora o governo tem a necessidade de vender o combustível muito mais caro, mais caro do que no resto do mundo e está impedindo a economia de caminhar.

Esses preços absurdos param a economia.

Há um caminho para sair da crise? É possível driblar essas dificuldades e encontrar alternativas independentemente do governo?O Brasil já teve situações difíceis, mas a sociedade criou condições para sobreviver e crescer.

Do jeito que acontece agora, está difícil porque o governo está ávido por impostos.

Os altos preços cobrados na energia elétrica e nos combustíveis é que estão gerando inflação.

Temos muitos produtos.

Quando se tem muita oferta, não há porque se ter inflação.

Estamos vivendo uma situação delicada e não temos uma expectativa de quando irá melhorar.

Com certeza vamos procurar um caminho, sem precisar ficar dependendo do governo.

Não podemos ficar a vida inteira dependendo dos nossos governantes.

Cada um tem que fazer a sua parte.

A decisão do governo para tentar equilibrar as contas com o aumento de impostos pode ter um efeito contrário do desejado? O empresariado e a população aguentam arcar com esse custo, como o retorno da CPMF?A população não aguenta mais.

Tanto que quanto mais o governo aumenta os impostos, mais o efeito é o oposto.

Diminui o consumo, a produtividade das empresas e, consequentemente, a arrecadação de impostos cai.

E nesse caso, com a arrecadação menor, o governo federal tem o déficit orçamentário maior.

Mas essa situação afeta também os estados e municípios que passam por dificuldades e não têm condições de gerar déficit, constantes como no governo federal e nem de buscar recursos no mercado.

A economia nos estados e municípios está cada vez mais difícil.

Para um empresário como o senhor, que atua em uma das áreas mais afetadas da economia, a de veículos, quais são os reflexos dessa crise?Sou empresário do comércio e esse setor está sofrendo muito, porque a diminuição do consumo tem sido muito forte.

Vendemos bens duráveis e o consumidor está protelando a compra em consequência da necessidade de se ter uma reserva financeira devido à situação do país.

E a reserva financeira das famílias está escassa e, por isso, a opção por protelar as compras.

Como consequência, o comércio vende menos, gera menos impostos, menos empregos.

Estamos vivendo uma desordem econômica, mas não sabemos até onde isso vai.

Não temos noção de onde vamos parar.

Mas temos de continuar buscando alternativas.

Essa solução virá da própria sociedade.

As coisas vão se ajeitando, se acertando até encontrar uma saída.

Mas não temos como fazer isso sem reduzir custos.

E quando se fala em redução de custo afeta toda a sociedade.

Vem o desemprego, a redução dos postos de trabalho.

Esse é o grande problema nosso hoje.

Fala-se de desemprego na ordem de 10%, acho que, quando há esse índice, você precisa pensar nas famílias.

Pelo menos na metade das famílias brasileiras, hoje, tem uma pessoa desempregada.

Se a família é composta por 5 pessoas, pelo menos 1 está desempregada.

Essa situação é muito grave.

O senhor percebe algum sinal de melhora neste início de ano?O que notei foi que quando chegamos no final de 2015, em novembro, o mercado fechou em um patamar bem abaixo do razoável.

Chegamos a ter segmentos vendendo de 35% a 40% menos em relação a 2014.

A situação está muito difícil.

Até 2012, nós tivemos crescimento no mercado de venda de automóveis e a partir de 2013 a situação começou a mudar e passamos a vender menos.

Em 2014, repetimos o ano anterior e 2015 foi o ano em que a situação ficou mais grave.

Mas percebo que no transcorrer de 2015 as coisas foram piorando até um patamar.

Em outubro, novembro, dezembro e janeiro as vendas se estabilizaram.

Então, a partir de agora nós devemos crescer.

Não temos mais como andar para trás.

Pelas medidas tomadas neste ano até o momento, o senhor acredita em melhoria na economia?Eu entendo que, se a sociedade, os empresários e o setor produtivo como um todo trabalharem despreocupados com as atitudes do governo, a tendência é a de melhorar.

Se o governo continuar a intervir na economia, como tem feito, como a inflação, que é fabricada pelos altos custos dos serviços públicos, como nos combustíveis, com o descontrole do preço da energia elétrica, e ainda com os impostos sobre a energia elétrica, onerou muito a produtividade no Brasil.

Por isso, nós temos inflação, que é sempre a desculpa para a retração.

Mas para mim não é a resposta adequada para essa situação.

Os custos públicos também são enormes.

Em janeiro, a Receita Federal normatizou mais custos para os empresários.

Isso não passa pelo Congresso Nacional, não é votado como as leis.

O governo apenas aumenta os custos para o contribuinte.

A carga tributária gera um custo violento para nós.

Nas eleições, todos os candidatos falam que vão melhorar essa situação.

Isso não acontece.

O governo precisa ter coragem.

Mesmo a presidente Dilma não tendo propriedade para ser uma política de destaque, mas ela é a presidente.

Ela tem poder.

Ela pode, com decretos, abaixar o custo da máquina pública.

Seria um grande passo no caminho da economia, gerando o crescimento.

Nesse cenário de dificuldades, inclusive com problemas de saúde pública, fica ainda mais difícil atrair novos investimentos?Eu tenho muita esperança em relação à vinda de novos investimentos, porque o Brasil é um país em que vale a pena investir.

Tem potencial de consumo próprio, mão de obra.

É uma pena essa retração na economia, porque estamos perdendo os talentos das empresas.

Todos nós estamos perdendo em função do desemprego e da necessidade de cortar custos.

O Brasil ainda é um país para se investir.

Temos mão de obra especializada, uma indústria montada.

Faltam estradas, infraestrutura.

Todos vão querer investir no país nas concessões públicas, como estradas e infraestrutura.

O senhor também é um homem da política.

Em relação a Minas Gerais, o governador Fernando Pimentel está conseguindo mostrar uma alternativa para impulsionar a economia no estado?O governador Pimentel agiu em duas pontas em 2015, uma foi a de conseguir a liberação dos recursos dos depósitos compulsórios com aprovação da Assembleia Legislativa para fazer um caixa melhor e sobreviver a 2015.

Ele conseguiu aprovar na Assembleia, não com o meu voto, o aumento de impostos, que ele entende, vai fazer crescer a arrecadação.

Mas não vai ter esse efeito.

Não adianta aumentar impostos se a economia não vai aguentar.

Vai retrair o mercado ainda mais.

A arrecadação de impostos vai acabar sendo menor do que o esperado, porque a população não aguenta mais pagar tanto.

Não acredito que aumentar impostos seja a solução.

Mas, ao longo dos anos, os governos têm feito isto.

Não Minas Gerais, mas alguns governos têm feito isso e, agora, essa foi a opção do governador Fernando Pimentel, a de aumentar impostos.

O governador está seguindo a mesma lógica adotada pela presidente Dilma?Ele conseguiu aprovar ano passado, na Assembleia Legislativa, o aumento de impostos da energia elétrica, telefonia, cosméticos, bebidas e vários outros produtos tiveram reajuste na alíquota de ICMS.

O governador conseguiu aumentar a carga tributária.

Mas nós também conhecemos o orçamento, sabemos que tem uma previsão de receita.

E pela receita prevista para este ano, o governo não tem condições de garantir a sua despesa sem cortar custos.

Este é um ano que está gerando muitas dúvidas, principalmente em relação à capacidade dos governos para superar a falta de recursos.

Esse modelo de administração já se esgotou?Nós vivemos em um país democrático de direito.

A situação em que o Brasil chegou em 2014 já antevia um 2015 muito difícil.

A situação foi agravada pelos escândalos no governo federal, com as denúncias de corrupção.

Com isso tivemos um 2015, como já era esperado, muito doloroso para a economia.

E não temos expectativa de melhora acentuada.

Qualquer melhora que vier a acontecer será muito pequena, porque o patamar da economia abaixou tanto em 2015, que será difícil recompor.

Nós tivemos PIB negativo e isso é muito grave.

Nós precisamos do PIB positivo para gerar riqueza, emprego para a sociedade e os profissionais que entram no mercado a todo ano.

Nós precisávamos de 2,5% a 3% de crescimento do PIB pelo menos e, no entanto, tivemos 3% negativo.

Esse é mais um problema que se somou à gravidade em que nós terminamos 2014, quando também tivemos um PIB baixo.

Não devemos ter notícias boas nem em 2016 e talvez nem em 2017.

Nós podemos sonhar com dias melhores? Podemos.

Mas não em 2017.

Pelo menos não no início do ano, porque 2016 vai deixar um legado também insatisfatório.

Os estragos no setor produtivo podem inibir a retomada da economia?O legado de 2015 vai pesar muito em 2016.

O dilema do empresário hoje é o de como se endividar para investir sem ter confiança no mercado.

Isso seria normal se houvesse regras claras e de longo prazo.

Mas na situação em que estamos, quem vai ter coragem de buscar dinheiro para investir? Quem vai fazer isso se não existe segurança na economia.

A economia do país está paralisada?Sim.

É isto que está acontecendo.

Nós entramos em um processo de paralisia da economia.

Nós não estamos voltando despreocupados para casa no final de um dia de trabalho.

Nenhum de nós.

Nenhum trabalhador está tranquilo.

Mas acredito que tudo tem começo, meio e fim.

Talvez agora, mesmo com a economia funcionando em um patamar bem inferior, bem abaixo do desejado, quem sabe nós conseguimos pavimentar um caminho para crescer futuramente.

Agência Trabalhista de Notícias (LL), com informações da Revista Viver Brasil Foto: Divulgação/Assessoria