Em entrevista, Marlene Campos Machado avalia participação da mulher na política

Agência Trabalhista de Notícias - 11/10/2017, 7:40

Crédito: Caio Reis/Divulgação

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As mulheres, inclusive as da Baixada Santista, representam a maioria da população brasileira. Na região, dos 1.781.727 habitantes, 52% são do sexo feminino (927.789), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, essa proporção está longe de se repetir quando o assunto é a presença delas na política regional. Atualmente, os nove prefeitos locais são homens. Nas câmaras, apenas sete das 134 cadeiras são ocupadas por vereadoras, o que representa apenas 5,2% das vagas no Legislativo. O percentual é inferior ao verificado no Estado (12,2%).

A presidente nacional do PTB Mulher, Marlene Campos Machado, lamenta que a participação do sexo feminino na política ainda seja tímida, embora venha aumentando pouco a pouco. Na avaliação de Marlene, que também é diretora-executiva do Projeto Mulheres Inspiradoras e integrante do movimento Mais Mulheres na Política, é preciso dar mais espaço no comando dos partidos para as mulheres, que ainda sofrem muito preconceito. Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida para A Tribuna.

Como surgiu o projeto Mais Mulheres na Política?

O Mais Mulheres na Política surgiu a partir da proposição da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 98/2015 – a PEC da Mulher, de autoria das deputadas federais e senadoras. A proposta reserva a cada gênero um mínimo de cadeiras na Câmara dos Deputados, assembleias legislativas e câmaras municipais. Através das parlamentares de São Paulo, fui designada para coordenar todos os partidos em nosso Estado envolvidos nessa iniciativa.

Qual o andamento atual dessa PEC?

Em setembro de 2015 essa PEC foi aprovada pelo Senado e, posteriormente, encaminhada para a Câmara e estamos aguardando ser apreciada pelos deputados federais.

Existe alguma previsão de quando a iniciativa entrará na pauta?

Por enquanto, ainda não há previsão, mas há uma intensa movimentação das senadoras e deputadas para agilizar a tramitação. Elas estão empenhadas na aprovação dessa proposta.

O que está previsto nessa proposta?

A PEC estabelece um número mínimo de cadeiras (para mulheres) nas três próximas legislaturas: 10% na primeira eleição (2018), 12% na segunda (2020) e 16% na terceira (2022). Se esse percentual mínimo não for atingido, as vagas necessárias serão preenchidas pelas candidatas com a maior votação individual entre os partidos que atingiram o quociente eleitoral. Infelizmente, sabemos que há uma grande dificuldade de as mulheres participarem da política partidária.

Os números apontam crescimento do número de filiadas. Isso se deve ao maior engajamento ou à exigência de destinar percentual mínimo de 30% de candidatos para um dos sexos?

Acredito que hoje, diante desse cenário político, os partidos estão fazendo um chamamento para que as mulheres participem mais da política. Vejo um crescimento maior da participação delas, embora estejamos muito longe do ideal. As cotas têm um apelo muito importante nesse momento.

Mas, de uma forma geral, esse maior engajamento não se refletiu na presença das mulheres no Legislativo.

A participação das mulheres no Parlamento federal passou de 5,3%, em 1990, para 9,9%, no ano passado. Isso representou uma evolução de 87%, um índice maior do que a média mundial no período, conforme consta na pesquisa do projeto Mulheres Inspiradoras. Sou diretora-executiva dessa iniciativa sem fins lucrativos para incentivar as mulheres a entrar na política. Esse levantamento apontou que, dos 138 países analisados, o Brasil ocupa apenas a 115ª colocação. Houve um crescimento, mas ainda temos de trabalhar, e muito, para avançar mais.

Na sua avaliação, quais são os principais fatores que contribuem para o afastamento das mulheres da política?

O primeiro deles é uma questão partidária. As legendas, de uma forma geral, apenas querem as mulheres para cumprir a cota exigida, mas é necessário entender que a sigla precisa incentivá-las, dar tempo para elas na TV e reservar uma parte do Fundo Partidário. É preciso que os partidos façam mais formações políticas para as mulheres. Isso é muito importante para mudar a realidade atual.

As falhas nas políticas sociais atrapalham esse engajamento das mulheres na política?

Sim, acredito que, independentemente do gênero, o mais importante para os gestores é ter uma sensibilidade social e se colocar no lugar das pessoas que dependem exclusivamente de políticas públicas. O gestor tem que entender que aqueles cidadãos mais necessitados pagam muitos impostos. Muitas mães de todo o Estado têm dificuldade de encontrar uma boa educação para deixar os filhos tranquilos nas creches e escolas. Hoje, 40% delas são chefes de família. A nossa saúde está muito precária por causada falta de médicos, medicamentos e leitos hospitalares. Como ela vai trabalhar tranquila e se dedicar à política?

Muitas vezes, as mulheres são colocadas em cargos de direção por conta da capacidade de organização e para resolver questões burocráticas, mas normalmente são deixadas em segundo plano nas eleições. Como reverter esse quadro?

Vejo que é necessário ter uma mudança estrutural nos partidos para que as mulheres possam ocupar cargos de direção, presidi-los em suas cidades e fazer parte das direções executivas nacional e nos estados. As mulheres precisam ter vida partidária para participar das decisões e desenvolver projetos. A mulher é dona de casa, trabalha fora, tem tripla jornada, mas também quer participar da política. Eu percebo isso ao longo desses 20 anos de experiência nessa área. Eu iniciei esse trabalho com atividades sociais dentro das comunidades. Nesses locais, a gente observa grandes líderes, mas elas precisam desse apoio das legendas para fazer um trabalho de militância.

Como foi a sua experiência ao participar das eleições de 2014, quando disputou as eleições para o Senado, e de 2016, ao ser candidata a vice-prefeita de São Paulo na chapa liderada pelo deputado federal Celso Russomano (PRB)?

Em 2014, foi uma campanha com pouquíssimo tempo de TV e poucos recursos, mas com um envolvimento muito forte. Conversei muito com os eleitores, senti as necessidades e o desejo da população. Isso foi importante, porque percebia que as pessoas, em especial as mulheres, tinham aquela esperança por ver uma liderança feminina e com ideias novas. Foi uma experiência extremamente saudável e positiva.

Na sua visão, o preconceito contra a mulher na política ainda é forte?

Vejo que o preconceito ainda existe, mas estamos enfrentando os desafios que temos na política, que ainda é muito machista. Precisamos quebrar esse paradigma para conquistar mais espaço e poder. As mulheres podem contribuir muito com a sociedade até por serem a maioria da população brasileira. Temos sensibilidade, um olhar diferenciado e somos muito mais observadoras e detalhistas do que os homens. Essas características podem contribuir para a política de uma forma geral.

E a senhora pretende concorrer novamente a algum cargo público em 2018?

No momento, estou focada no trabalho de filiações no PTB. Sou a presidente nacional do PTB Mulher. Esse projeto tem sido muito positivo. Estamos trazendo muitas mulheres para a legenda. Esse é o meu foco, inclusive pretendemos em breve fazer uma campanha de filiação em Santos e em toda a Baixada Santista.

Diante dessa crise política, o que os partidos precisam fazer de diferente para atrair os eleitores às urnas no próximo ano?

Estamos falando de um país continental e precisamos pensar que o Brasil é muito maior que os problemas econômicos e de moral, da crise política e dos casos de corrupção. A população precisa acreditar em novas lideranças e dar chance às mulheres para que tenhamos bons gestores e representantes com um olhar mais voltados aos mais necessitados. Sempre falo que não podemos ficar apenas criticando os políticos e demonizando a política. Temos que participar. Se nós cruzarmos os braços, vamos deixar a política na mão daqueles que são tão criticados. É importante participar. É preciso ter essa conscientização política, independentemente do gênero.

Com informações de A Tribuna