Entrevista José Múcio Monteiro: O articulador político é o presidente

PTB Notícias 10/05/2009, 7:37


Ele já recebeu 86 pessoas em um só dia no seu gabinete e ri de quem o chama de malabarista.

Há um ano e seis meses à frente do Ministério das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro é o responsável pela articulação política do governo.

De perfil conciliador, está envolvido na retomada da reforma política, missão considerada árdua até por um político experiente como ele.

Deputado federal pelo PTB de Pernambuco, Múcio desenha em uma folha em branco o mapa da reforma.

Ele já sabe quais partidos querem a aprovação, quais não querem e porque.

Destaca, liga os pontos e afirma que sua tarefa é conciliar interesses dos aliados.

Com a reforma no Palácio do Planalto, Múcio, 60 anos, transferiu sua equipe para o prédio mais próximo do Congresso.

O lugar encontrado foi um edifício anexo ao Itamaraty, onde uma média de 60 pessoas por dia aguarda para falar com o ministro.

– Meu dia é uma loucura.

O pior é o pessoal que aparece sem agendar – reclama.

Ele também vem trabalhando para aplacar o apetite do PMDB.

Desgostoso com a perda de postos na Infraero, o partido chegou a cobiçar seu cargo no ministério.

Em Brasília, é forte o boato de que o ministro será indicado para o Tribunal de Contas da União (TCU).

Ele desconversa:– Essa é a vaga do presidente, indicação pessoal dele.

Católico, Múcio gosta de citar a Bíblia e busca proteção junto a Nossa Senhora d”Ajuda.

A imagem divide espaço com fotos dos filhos e netos.

No outro balcão, a biografia da cantora Maysa está em meio a mais papéis.

Acima, uma charge emoldurada, em que um Múcio de cabeça desproporcional aparece de braços erguidos, equilibrando malabares.

Na última quinta-feira, o ministro concedeu entrevista à Agência RBS.

Confira os principais trechos.

Por que a reforma política é importante?José Múcio – Quando você tem o presidente da República superbem avaliado e o Congresso com uma avaliação lá embaixo, alguma coisa está acontecendo na nossa democracia.

As pessoas começam a achar que o poder da representatividade torna-se prescindível.

Sabemos que não existe democracia sem Legislativo.

A culpa por essa situação não é dos parlamentares?Múcio – Você pode pôr a culpa nos parlamentares e pode pôr a culpa no critério de escolha.

Quando um candidato a vereador, a deputado, vai pedir voto, ninguém pergunta quantos projetos ele relatou, quantos livros leu.

Quem mentir mais, quem enganar melhor, tem chance.

Muitas vezes homens de bem são substituídos por vendedores de ilusão.

Mas uma reforma nas leis eleitorais terá condições de alterar esse quadro?Múcio – O presidente tem o apoio de 14 a 15 partidos.

Tem? Não.

Dentro dos partidos há facções, interesses diversos.

Primeiro a gente precisa fortalecer os partidos.

Meu partido pensa a mesma coisa no Rio Grande do Sul, no Amazonas? Quando crescem, os partidos viram vários segmentos.

Se o melhor jogador do seu time for embora, você continua com o time.

Isso porque ele tem bandeira, torcida.

Em um partido, quando um político sai, os eleitores vão atrás dele.

Não é a primeira vez em que se que fala em reforma.

Por que agora pode dar certo?Múcio – Outras propostas foram prejudicadas porque eram uma coisa só.

O partido pequeno dizia assim: “se votar cláusula das barreiras eu não voto isso que você quer”.

O resultado daquela discussão era zero.

Fatiamos os projetos.

Com o voto em lista o eleitor não perde o direito de cobrar do deputado em quem ele votou?Múcio – Vai deixar de ter a fulanização das ideias.

Hoje eu penso assim, meu colega de partido não.

Quem vai defender a ideia não sou eu, é o partido.

Para aprovar a reforma, precisamos juntar os partidos da base e da oposição.

Há partidos da base que hoje querem, outros não.

O negócio é fazer com que todos se entendam.

Como isso será feito?Múcio – Não sei.

Na próxima semana tem uma reunião grande com esse grupo aqui (da base do governo).

Vamos ver o que nos une.

O governo deseja fazer a reforma política.

Tem gente achando que dá para aprovar para o próximo ano a lista com financiamento público.

Eu considero muito complicado.

Mas vamos tentar tudo.

Em meio à briga por cargos na Infraero, o PMDB está dificultando a aprovação de algumas MPs.

Como lidar com isso?Múcio – Não sei se foi por cargo da Infraero.

E não é o PMDB.

O fato de ser um ano pré-eleitoral já provoca o início de manifestações independentes no Congresso.

Cada deputado tem seus interesses.

Primeiro o PMDB queria o seu cargo, depois começou a defender o seu nome para evitar uma indicação do PT.

Como é ficar no meio do fogo cruzado?Múcio – Não é um cargo fácil.

Eu não decido, eu não faço, eu apenas materializo o que o presidente da República quer.

O articulador político é o presidente.

Meu papel é intermediar os interesses.

O senhor está a caminho do Tribunal de Contas da União?Múcio – Poderia dizer isso se a vaga fosse disputada na Câmara.

Essa é a vaga do presidente, indicação pessoal dele.

* Agência Trabalhista de Notícias com informações da Agência RBS