Leia o artigo ‘Um desfecho patético’, do Presidente Roberto Jefferson

PTB Notícias 27/06/2012, 15:51


Leia abaixo a íntegra do artigo “Um desfecho patético”, do Presidente Nacional do PTB, Roberto Jefferson, publicado nesta quarta-feira (27/6/2012) no jornal “Brasil Econômico”.

Um desfecho patéticoPor que o agora ex-presidente do Paraguai Fernando Lugo foi afastado do cargo e da forma como o foi?Quem quer que tenha buscado serenamente respostas para essas perguntas nos noticiários e na internet durante o último final de semana certamente ficou perplexo e, se encontrou algumas pistas, também terá acrescentado outras perguntas às iniciais.

Não me refiro à busca de elementos factuais.

Sob esse aspecto, o que aconteceu foi tão despojado de sutilezas e de meandros quanto a vida da maioria dos paraguaios.

Como afirmei em meu blog, as lideranças políticas paraguaias foram menos hipócritas que as de outros países latino-americanos à esquerda e à direita de Lugo.

Quanto ao episódio em si, tão desprovido de incógnitas quanto ao seu desfecho, não faz sentido fazer considerações sobre o pretexto invocado para o sumário processo de afastamento do presidente.

Não foi sequer necessário muito espaço nos jornais e telejornais para relatar o acontecido.

Nem mesmo os líderes do processo se empenharam em construir uma versão minimamente elaborada para seus atos.

Um conflito agrário, algumas mortes, um dispositivo constitucional suficientemente vago e um presidente politicamente isolado foram suficientes para que o “acidente de percurso” que foi sua eleição, em 2008, fosse corrigido.

No âmbito da blogosfera, da mesma forma que aconteceu em relação à Rio+20, o assunto foi objeto das versões e interpretações as mais extravagantes, na maioria baseada em fontes mais figadais do que fidedignas.

Como diria o chefe de polícia corrupto do filme Casablanca: acusem os culpados de sempre e, claro, façam-se as comparações levianas de sempre.

Nenhuma ditadura — e menos ainda num país como o Paraguai, onde a vigência da democracia foi ainda mais rarefeita que em seus vizinhos — desaparece (mesmo que deposta por uma revolução) sem deixar sequelas.

O Paraguai do general Stroessner, obviamente não tinha instituições democráticas e o que passou a existir desde então não é radicalmente diferente da situação anterior, tanto que até hoje o Congresso não permitiu a adoção do Imposto de Renda proposto pelo governo sob pressão do FMI.

Como disse, a chegada de Lugo à presidência, sem um partido ou movimento político importante, foi um acidente de percurso.

Não pode surpreender a ninguém que não tenha cumprido algumas de suas promessas, que seu vice (com o qual não tinha identidade política alguma exceto a circunstância da eleição de 2008) tenha agido como agiu, que as votações contra ele na Câmara e no Senado tenham sido tão avassaladoras e, finalmente, que os paraguaios que foram às ruas tenham sido tão poucos e inexpressivos.

Aliás, os “lamentos” sobre o fato de não ter havido resistência nesse contexto não passam, na verdade, de desejo de derramar sangue alheio estupidamente.

Se há algo de clamoroso no episódio é algo que pode ser enunciado com outra pergunta: já não deveríamos ter aprendido no Brasil ou em qualquer lugar da América Latina que na democracia — e em certa medida até nas ditaduras — não se governa sem estabelecer relações políticas, sem construir consensos mínimos? Como ou por que Lugo não tinha e não construiu o consenso que sobrou aos seus opositores? O desfecho não foi trágico.

Foi patético.