“O Procurador denunciou os 40 ladrões mas não incluiu o Ali Babá”

PTB Notícias 27/08/2007, 2:09


O Presidente Nacional do PTB, Roberto Jefferson, foi o convidado deste domingo (26/8) do programa Canal Livre, da Band.

Apresentado por Joelmir Betting, o tema do programa foi o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, iniciado na última semana.

Os jornalistas Fernando Mitre, Marcelo Parada e Antonio Teles conversaram com Roberto Jefferson sobre a denúncia do mensalão feita pelo procurador Antonio Fernando, além dos personagens e da acusação sobre o caso.

“Eu creio que há um equívoco na denúncia feita pelo procurador-geral.

A denúncia foi mal formulada, foi marqueteira, ele denunciou os 40 ladrões mas não incluiu o Ali Babá”, disse o Presidente do PTB no programa.

O Canal Livre apresentou inicialmente uma reportagem sobre o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal.

Foi mostrado um resumo do que ocorreu na semana passada no tribunal, os acusados, o trabalho dos advogados, as primeiras denúncias rejeitadas, etc.

O apresentador Joelmir Betting afirmou que a tarefa mais complicada está reservada para esta semana, quando serão analisados os crimes entre José Dirceu e seu grupo com sua base aliada no Congresso.

Betting perguntou ao Presidente do PTB qual a sua opinião sobre o julgamento do mensalão no STF.

Roberto Jefferson – “A favor ou contra, a meu ver, acho que o Supremo Tribunal Federal se afirma neste processo do mensalão.

O supremo está analisando caso por caso, e creio que é muito importante para a história do País a decisão que vier a ser tomada pelo STF”.

“Eu creio que há um equívoco na denúncia feita pelo procurador-geral.

A denúncia foi mal formulada, foi maqueteira, ele incluiu os 40 ladrões mas não incluiu o ali babá.

E essa denúncia vai acarretar delongas muito extensas, por conta da quantidade de testemunhas que podem ser convocadas.

Há um cálculo que chega a até 1600 testemunhas, o que vai provocar com isso que tenhamos um debate muito longo nesse processo no Supremo”.

“A meu ver, o debate no Supremo tem se colocado com total liberdade de imprensa, até para que os jornalistas possam acompanhar o processo.

A democracia é muito mas forte no Judiciário do que no Legislativo ou no Executivo.

A verdadeira noção de cidadania se dá na sentença, quando um juiz pode atender um direito questionado, pedido por alguém.

O verdadeiro sentimento de cidadania é muito mais feito no Judiciário”.

O Presidente do PTB foi questionado pelo jornalista Fernando Mitre a respeito da declaração feita por seu advogado, Luiz Francisco Barbosa, de que ele seria uma testemunha valiosa para o processo do mensalão.

Roberto Jefferson – “Ao fazer a denúncia, o procurador Antonio Fernando me colocou na vala comum, e com isso me faz ficar na defensiva, porque a partir do momento em que eu sou réu, o que eu falo pode ser interpretado contra eu mesmo.

E ao me colocar na vala comum do mensalão, ele dá a impressão de que eu recebi dinheiro para votar com o governo, que eu recebi o mensalão, e isso não é verdade.

O PTB não recebeu mensalão, o PTB fez um acerto com o PT com propósito de financiamento de campanhas eleitorais, não para votar com o governo”.

“Eu denunciei o mensalão desde o início para a cúpula do PT, para ministros e depois ao presidente Lula.

Eu não recebi mensalão e não permiti que o partido recebesse.

Um deputado que recebe dinheiro para votar a favor do governo, ele está se corrompendo.

O que foi feito entre o PTB e o PT foi um acordo eleitoral, para financiamento das campanhas dos candidatos do PTB”.

“A Câmara dos Deputados é muito mais dócil ao governo do que o Senado.

Na Câmara já se computam 400 votos a favor da manutenção da CPMF, e no Senado não.

Pelo que eu sei, não houve mensalão no Senado”.

“Os instintos primitivos são coisa do passado.

Os ressentimentos vão ficando pra trás”.

A participação do presidente Lula no processo do mensalão também foi alvo de perguntas dos jornalistas que participaram do programa.

Questionaram do Presidente do PTB se ele mantinha sua visão de que o presidente Lula nada sabia sobre o caso, e também porque o mesmo não promove uma ampla reforma política para modificar os vícios do Poder Legislativo.

Roberto Jefferson – “Hoje a minha impressão é que o presidente Lula não continua ignorando tudo que está acontecendo em seu governo”.

“O Supremo está tomando uma atitude histórica, e vai dar solução a muitos casos claros de corrupção havidos de mensalão no governo Lula.

O caso não vai ficar impune, não vai ser varrido pra baixo do tapete, as coisas estão mudando neste País.

Não se ouve falar, por exemplo, em tantos casos de nomeações políticas como antes, como a bagunça que estava no começo do governo Lula.

Agora tudo parece ser mais por critérios técnicos.

O Lula está tendo mais cuidado, hoje temos a opinião pública muito mais atenta, sabendo o que acontece.

A imprensa acompanha tudo com lupa”.

“A meu ver, vamos ter que passar por uma ampla reforma política no Brasil pra melhorar as coisas no Legislativo.

Mas acredito que as coisas começam a acontecer, não dá mais pra continuar esse sistema de cada deputado ser um agente autônomo.

Ou se tem partidos ou não se tem partidos.

Acho que cada vez mais se aprofunda a distância entre a sociedade e a classe política”.

“Está faltando coragem ao Lula pra fazer a reforma política, com a convocação de uma assembléia constituinte, por exemplo”.

“A bancada do PTB está na base do governo, porque eu tenho que permitir que os meus companheiros se frustem com a relação com o governo.

A base do partido não é governista, mas as bancadas são.

Entretanto, até hoje não nomearam ninguém, e se nomearam, foi individualmente, não com a chancela do partido.

Se alguém fizer uma nomeação, ela está sendo feita pessoalmente, não pelo partido.

O Mares Guia, por exemplo, é um ministro do Lula, não do PTB”.

Em seu segundo bloco, o programa Canal Livre apresentou uma reportagem em que foi mostrado um pequeno resumo de todo o caso do mensalão, desde o vídeo com Maurício Marinho até as absolvições na Câmara.

O jornalista Joelmir Betting abriu a segunda parte da entrevista questionando o Presidente do PTB sobre o problema da liberação de emendas parlamentares.

Betting perguntou a Roberto Jefferson se as emendas não seriam uma nova forma de mensalão.

Roberto Jefferson – “Em uma linguagem política a liberação de verbas é sim um tipo de mensalão, mas é um acerto político, não tem reprovação judiciosa”.

“A denúncia do procurador não é uma peça perfeita.

O procurador jogou pra galera.

Eu tenho muita desconfiança de homem que fala fino, que não olha nos olhos.

Com aquele ar clerical, ele faz marketing de papa-hóstia.

Ele não tem a avaliação dele sobre a minha pessoa, não me chama de corrupto? Pois eu tenho a minha sobre ele.

Pode ser que ele seja exceção, mas ele não teve peito de colocar o Lula na denúncia, não colocou o ali babá”.

“Eu acho que não há limite mais para os homens do Ministério Público.

Os heróis agora são os procuradores da República e os delegados da Polícia Federal.

Eles pairam acima de tudo.

O poder não emana mais do povo, emana dos funcionários públicos.

Como é que a gente fiscaliza esses homens? Eles são perfeitos, não são passíveis de erros? O procurador-geral ouviu agora 40 advogados dizendo que a denúncia está mal formulada, e ela pode ser aceita em parte, mas esse negócio de se achar acima das instituições, isso está ruim.

Então vamos fazer concuso para a Câmara e para o Senado.

E faz o seguinte: num concurso de título, dá prioridade a procurador da República e delegado da Polícia Federal”.

“O procurador diz que é um agente da sociedade, mas quantos votos ele teve para representar a sociedade? Isso está muito ruim, porque um político que tem um milhão de votos não vale nada? A essência do promotor é estar distante do povo.

Tem que ouvir o povo na rua.

A sociedade no Brasil não julga o procurador”.

“Estamos vivendo um estado policial, em que se acaba com a sua liberdade.

Eu não quero ir no banheiro de porta aberta, mas eu vou ser obrigado a ir no banheiro de porta aberta porque tudo está virando um grande big brother.

Esses homens se transformaram em deuseus, mas tem que se perguntar pra sociedade se ela quer ser governada por procuradores ou delegados de policia”.

Novamente o Presidente do PTB foi perguntado sobre a dinâmica do mensalão, sobre os comandantes do processo de compra de votos.

Roberto Jefferson – “Sobre a quadrilha do mensalão, o José Dirceu chefiava, e o Genoíno era uma espécie de Suplicy, fala bonito mas não tem voz de comando.

Nas reuniões que a gente fazia, nunca era Genoíno que batia o martelo, ele falava com a gente e ia pro PT decidir com o Dirceu.

Dentro desse nosso acerto, não podem nos acusar de corrupção ativa, porque foi um acordo entre partidos.

Quando eu fechei com o PT, estava o José Múcio, o Emerson Palmieri, o Silvio Pereira, o Genoíno e o Delúbio.

Fechamos ali, batemos o martelo, resolvemos fazer um acerto nacional de apoio do PT aos nossos candidatos.

E fomos lá no José Dirceu, porque era ele quem decidia”.

“O Marcos Valério foi tesoureiro do Eduardo Azeredo na época em que o mesmo era governador de Minas, e foi um grave erro do PSDB manter Azeredo como presidente do partido sabendo do passado dele.

Aliás, o PSDB acertou com o PT a minha cassação.

O deputado Alberto Goldmann queria se aproveitar da minha denúncia, mas não queria a minha convivência.

O PSDB acertou isso com o PT, aliás, acerta sempre”.

No terceiro bloco, o programa Canal Livre apresentou uma reportagem mostrando a denúncia que pesa sobre o senador Eduardo Azeredo, a respeito do chamado “mensalão mineiro”, que teria se dado na época da capanha de Azeredo ao governo de Minas e que teve como arrecadador o publicitário Marcos Valério.

O jornalista Joelmir Betting perguntou a Roberto Jefferson sobre a participação do PSDB no começo do mensalão e se eles seriam diferentes do PT.

Roberto Jefferson – “PSDB e PT são a mesma coisa.

A base territorial do PT e do PSDB é a mesma: o Estado de São Paulo.

Os financiadores são os mesmos, os eleitores são os mesmos.

Ninguém vai fazer nada um contra o outro porque os interesses são os mesmos.

O PSDB já acertou a prorrogação da CPMF, por exemplo.

Qual é a oposição do PSDB ao governo do PT? Nenhuma.

Roberto Jefferson foi questionado novamente pelo jornalista Fernando Mitre a respeito da posição colocada por seu advogado, Luiz Francisco Barbosa, de que ele seria uma importante testemunha no processo do mensalão.

Roberto Jefferson – “Eu como testemunha desse processo poderia estar dando uma contribuição muito maior ao esclarecimento dos fatos.

Não tenho nada bombástico para revelar, mas queria mostrar pra sociedade porque um partido político nomeia um presidente da Petrobras, por exemplo.

Por que? Caixa, para fazer dinheiro, para financiar o partido, e isso tem que ser dito pra sociedade, tem que ser explicado”.

“Como já disse, a denúncia do procurador da República tem efeito pirotécnico, de marketing.

A pergunta que a gente se faz é: onde estão os corruptores? Quem pôs dinheiro nas mãos do Marcos Valério, só o Banco Rural? Só o Visanet? Não, tem mais gente.

Tem empreiteiro? Claro que tem.

Tem banco? Claro que tem, mas esse pessoal ficou de fora.

O procurador na verdade se baseou apenas no que eu revelei”.

Na sua exposição final, o Presidente Nacional do PTB agradeceu o convite da Band e a oportunidade de poder falar de suas impressões a respeito do julgamento do mensalão.

“Eu não sou um corruto passivo.

Não participei e não recebi mensalão, e o nosso partido não recebeu dinheiro para votar a favor do governo.

Agradeço penhoradamente a oportunidade de dizer isso.

” Agência Trabalhista de Notícias