Presidente do PTB faz balanço do ano de 2007 em artigo “Aos detectores!”

PTB Notícias 30/12/2007, 12:37


Aos detectores!Por Roberto JeffersonJá se tornou obrigatório, pelo costume, fazer um balanço ao final de cada ano, destacando fatos ou notícias mais interessantes do exercício que se encerra.

É o prato típico da mídia neste período.

Não fujo à regra e, olhando 2007, ressalto uma reportagem que me chamou particularmente a atenção e me fez refletir.

Pequena, pode ter passado despercebida da maioria.

Foi publicada por Veja, edição de 26 de dezembro.

A entrevista com o americano Joe Navarro, na seção Auto-retrato, é, no mínimo, curiosa.

Agente do FBI, ele cita estudos sobre a mentira – comportamento humano tão freqüente – e diz ter rastreado mais de 100 sinais típicos de um mentiroso.

O mais interessante é o reconhecimento de que 10% do contingente de mentirosos clássicos são indetectáveis.

Ou seja, mentem sem pudor e não são flagrados! Para o especialista, os brasileiros, que abusam nos gestos e expressões faciais para mostrar seus sentimentos, exatamente por tais características, mentem mal.

Povos mais fechados, que são por isso mesmo indecifráveis, têm maior pendor para a mentira.

Respirei aliviado, após essa leitura.

Conclui que temos futuro.

Talvez, nosso maior problema político seja a falta de detectores de mentira instalados por aí.

No Congresso, no Executivo Federal, nos partidos e outros lugares estratégicos.

Poderíamos facilmente detectar um mentiroso ainda a quilômetros dele.

Talvez pudéssemos, a partir daí, entender melhor porque meu depoimento sobre a existência do mensalão, em 2005, provocou tanto silêncio e repúdio.

E não o contrário.

Afinal, o que se deseja não é a expressão da verdade? Por sua experiência, Navarro responderia que não.

Estamos acostumados a ouvir e a mentir – nem que sejam as mentirinhas de salão.

No geral, o que se faz não é o que se prega.

“Relevante destacar, conforme será demonstrado nesta peça, que todas as imputações feitas pelo ex-deputado Roberto Jefferson ficaram comprovadas” – Relatório do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, em 29 de março de 2006.

O que eu disse ficou comprovado.

Não sou réu, sou testemunha.

Como relatei em Nervos de Aço, meu livro, à página 25, o que eu fiz – com minhas denúncias – foi tirar a roupa do rei, mostrar ao Brasil que o governo Lula e o PT estavam cheios de fariseus e vendilhões (.

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).

Logo o PT que, pouco atrás, batia no peito e reivindicava para si a condição de ser o único partido que fazia política ungido pela moralidade.

Logo o PT, que queria refundar o País, demonstrou não ter visão republicana.

Mas o partido não está só.

A esquerda de uma maneira geral vive uma crise intensa.

Recentemente, o neto de Che Guevara, Canek Sánchez Guevara – fato citado por Clóvis Rossi, em coluna, na Folha de S.

Paulo -, comentou, em entrevista ao jornal espanhol El País, que a esquerda precisava fazer seu mea culpa e aprender com a crítica.

“Sem ser crítico, não se pode ir a nenhum lado, se reproduz o pior.

” Posturas acomodadas – ao contrário de ajudar a revolução, refletiu, por sua vez, o cubano Eliades Acosta, chefe do Departamento de Cultura do Comitê Central – poderiam visar única e exclusivamente a preservação de cargos ou posições, o que seria lesivo à sociedade, completo eu.

Que lição de democracia à cubana! e o reconhecimento tácito de que a utopia da igualdade esconde erros primários.

O próprio “companheiro” Frei Betto falou do “tumor fétido” que o PT viu nascer e não rompeu – referia-se, imagino, ao mesmo esquema que expus ao Brasil.

Encerro essas curtas reflexões sem melancolia.

Fiz o que fiz e faria de novo.

O Brasil mudou.

A mídia aprendeu a investigar mais a política.

Avalio que precise apenas iniciar 2008 munida de detectores.