‘Quero dar um abraço no Temer’, diz Roberto Jefferson a O Globo

PTB Notícias 6/04/2016, 9:56


Confira abaixo a matéria publicada pelo site O Globo na noite desta terça-feira (5/4/2016).

Roberto Jefferson volta a Brasília: “Quero dar um abraço no Temer”Ex-deputado condenado no mensalão vai reassumir presidência do PTBPOR LETICIA FERNANDESÀs 19h45m desta terça-feira, o ex-deputado Roberto Jefferson, que reassume a presidência nacional do PTB no próximo dia 14, atravessou as portas automáticas e desembarcou no aeroporto de Brasília.

Após três anos sem pisar na capital — a última vez foi uma rápida visita em agosto de 2013, da qual ele próprio não lembrava —, o homem responsável por denunciar o escândalo do mensalão, em 2005, chegou acompanhado da mulher, Ana Lucia Novaes, vestindo camisa quadriculada azul e branca, blazer azul marinho, calça jeans e sapato de couro marrom.

Os cabelos estão longos e mais grisalhos; a língua, ainda mais afiada:— Acho que Deus deu ao guerreiro o campo de batalha.

Se eu voltasse num momento de paz talvez eu estranhasse um pouco.

Já senti de novo a faca no dente e o machado na mão.

Voltei — disse ao GLOBO, dando uma gargalhada.

Condenado a sete anos e 14 dias de prisão por sua participação no mensalão, Jefferson foi beneficiado recentemente pelo indulto de Natal e teve sua pena perdoada pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Livre, ele refuta, por ora, a possibilidade de se candidatar a algum cargo eletivo no futuro, mas diz estar animado para voltar à cena política como articulador e presidente do partido.

Crítico do PT e do governo da presidente Dilma Rousseff — “ela não inspira mais qualquer condição de governar” —, o ex-deputado contou que se encontrará com o vice-presidente Michel Temer (PMDB-RJ) para “ajudá-lo na transição”, caso o impeachment seja aprovado na Câmara.

— Quero dar um abraço no Temer e dizer que estou do seu lado.

Eu já fui o general da tropa de choque do impeachment do Collor, no lado da resistência contra.

Vamos conversar para trocar experiências, agora do outro lado — afirmou Jefferson, tecendo elogios ao peemedebista, a quem chamou de “gentleman” e “grande homem”.

Entre as lembranças amargas de quando teve o mandato cassado por seus pares, em setembro de 2005, ele também guarda recordações daqueles que o apoiaram gratuitamente.

Um deles foi o hoje vice-presidente da República:— Um cara que me deu a mão naquela época, sem eu pedir, foi o Temer.

Ele me ligou e disse: ‘estou falando no PMDB aos amigos que votem pela sua absolvição’.

Foi uma manifestação direta dele, e muitos deputados do PMDB disseram que votaram contra a minha cassação porque o Temer pediu.

São coisas assim que você guarda e não esquece — disse, já falando em um eventual governo do vice:— Compor é uma coisa que depende dele.

O PTB tem quadros, gente boa se ele quiser.

Mas não vou oferecer e não negociarei com Temer nesses termos, mas quero apoiá-lo nessa transição.

Na chegada ao lobby do Hotel Nacional, sua morada em Brasília durante os quase 24 anos como deputado, Roberto Jefferson foi recebido com festa pelos funcionários.

Uma delas o aguardava no 9° andar para acomodá-lo no quarto 923, um espaçoso cômodo com uma sala usada pelo ex-deputado para conversas políticas.

Ele lamentou que o quarto 1006, onde morara, estava ocupado quando decidiu vir à cidade, onde chega sem passagem de volta comprada.

No dia em que um de seus aliados, o deputado Jovair Arantes (PTB-GO), apresentará o relatório na comissão do impeachment — ao que tudo indica, segundo Jefferson, a favor do impeachment de Dilma —, o ex-deputado virá à Câmara para conversar com parlamentares do PTB.

Ele pedirá que os deputados fechem questão a favor do impedimento, mas disse que não vai obrigar ninguém.

Na Casa, há petebistas que se mostraram aliviados com a orientação que Jefferson dará, que será usada, segundo eles, como “desculpa” para votar contra o governo.

Jefferson disse que sua passagem pela Câmara será “discreta” e que ficará longe do plenário da reunião da comissão do impeachment (“o brilho é do Jovair, não quero disputar a cena com ninguém”, disse).

— O PTB não tem tradição de fechar questão, ou esvazia o partido.

Impor é diferente de fazer um pedido, e vou pedir a todos eles que votem a favor do impeachment, mas não posso obrigá-los.

Roberto Jefferson não poupou críticas a Lula e comparações entre o momento atual e o impeachment do hoje senador Fernando Collor, do qual ele foi um dos mais fiéis aliados em 1992:— Esse impeachment é muito parecido com o do Collor, é por corrupção mesmo.

Os barquinhos do sítio em Atibaia são o Fiat Elba do ex-presidente Lula.

A diferença é que Lula tem um coletivo de PC Farias, cada um que vai preso surgem vários outros.

Para o ex-deputado, a judicialização de que o PT lança mão no STF vai “desmoralizar” os ministros da Corte.

— Desde que entrou, o PT transformou o Congresso numa casa de negócios.

Virou tudo por dinheiro.

E, se continuar judicializando no Supremo para se proteger, vai destroçar a imagem do Supremo.

O PT usa as alianças a ponto de envelhecê-las e desgastá-las — criticou.

Ele disse ainda que não planeja qualquer encontro com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em sua visita ao Parlamento, mas afirmou simpatizar com o peemedebista por ver semelhanças entre ele e o ex-presidente Lula.

— Eduardo Cunha é perfeito para o Lula, é o adversário ideal dele.

Tenho simpatia por ele porque é meu vilão predileto, Lula nunca esperou que pudesse surgir um cara igual a ele para enfrentá-lo.

Eduardo é igualzinho: ardiloso e sem escrúpulos.

O que Lula faz usando as regras da lei, numa interpretação favorável a ele, o Eduardo faz com o regimento interno.

Foto: Jorge William/Agência O Globo