Roberto Jefferson admite poder do Ministério Público e da Polícia Federal

PTB Notícias 16/09/2007, 19:55


Leia abaixo entrevista do Presidente Nacional do PTB, Roberto Jefferson, publicada nesta domingo, 16/9, no jornal Folha do Estado, de Cuiabá (MT):Roberto Jefferson admite poder do MP e PFRoberto Jefferson tornou-se um nome conhecido em todos os cantos do Brasil não por sua atuação política, mas por denunciar o escândalo do mensalão, a “mesada” que os deputados federais supostamente recebiam para aprovar projetos do governo petista.

Em entrevista exclusiva concedida ao jornal “Folha do Estado”, no restaurante do Hotel Paiaguás, durante uma confraternização com amigos, ele admitiu, em tom de crítica, que Ministério Público e Polícia Federal têm mais poder que políticos eleitos pela população.

Ele também garante que o deputado mato-grossense Pedro Henry era um dos líderes do PP que cooptavam outros parlamentares oferecendo o dinheiro e fez, assim, seu partido crescer na Câmara Federal.

Jefferson disse ainda que José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, prometeu inocentá-lo em um escândalo político em troca de seu silêncio sobre o mensalão.

Além de homem-bomba, Jefferson também ficou famoso por sua aptidão musical.

Diz que pratica canto todos os dias, religiosamente, e que gosta de estilos napolitanos e músicas românticas, com preferência pela MPB.

Vaidoso, fez cirurgia de redução de estômago há alguns anos e busca estar sempre em forma, além de cuidar das unhas e só cortar os cabelos quando é lua cheia.

Folha do Estado – Qual o motivo da sua vinda a Mato Grosso?Roberto Jefferson – O Sobrinho (ex-governador Osvaldo Sobrinho) vai assumir o PTB no Estado, estou aqui para apóia-lo e torcer para que faça um partido bem vibrante, um PTB bem forte em Mato Grosso, porque esse é um Estado importante, pujante, que se destaca como principal mola da economia do Brasil, que é a agricultura.

Nós não podemos aqui deixar a nossa bandeira murchar.

O PTB tem que voltar a ser pujante e o sobrinho está encarregado de fazer isso.

Folha do Estado – No seu blog na internet, o senhor tece críticas a outros partidos.

O que o PTB tem de diferente das outras legendas?Roberto Jefferson – O PTB para mim tem uma grande coisa.

O meu partido não se alugou para o mensalão, não há um deputado do PTB que tenha recebido o mensalão para votar a favor do governo.

Isso faz uma diferença, porque no momento em que o governo investiu para receber apoio no Plenário da Câmara, meu partido ficou fora disso.

O PTB é um partido que tem homens falíveis, mas que tem ideal e consegue mantê-lo apesar de toda essa pressão que hoje existe no mundo político.

Folha do Estado – Qual a sua avaliação sobre a absolvição do senador Renan Calheiros?Roberto Jefferson – Muito ruim.

O Renan errou o jogo, ele se envolveu em uma relação que acabou sujando a cueca dele de batom.

Não há saída para batom na cueca, ele deveria ter se licenciado, renunciado à presidência do Senado.

O Renan não poderia ter levado a crise pessoal, matrimonial, para dentro do Congresso.

Ele não poderia ter comprometido a imagem do governo Lula no final como comprometeu, pois o governo se empenhou para salva-lo.

Folha do Estado – Se o Renan fosse cassado, ele poderia comprometer o governo?Roberto Jefferson – Gravemente.

O governo salvou o Renan em troca do silêncio dele.

Eu presidente do PTB sábio o que sabia, imagina o Renan, presidente do Senado Federal, o que deve saber? O empenho do governo com ministros, os líderes do PT trabalhando para salvar o mandato dele, é porque o Planalto não sobreviveria a um segundo mensalão.

Folha do Estado – Esse apoio do governo ao Renan foi o que falou ao senhor para que não revelasse o mensalão?Roberto Jefferson – Não, é diferente.

A história começou nos Correios, com um cidadão de quinta chamado Maurício Marinho, que não tinha nenhuma relação comigo nem com o PTB, funcionário de carreira, que foi colocado na época pelo PTB num cargo de chefia, mas não era do geral, era do armarinho dos Correios, dos envelopes, selos.

.

.

nunca ele seria um arrecadador do PTB.

Primeiro porque o PTB não conhecia ele, segundo porque nunca teria como arrecadador um chefe de armarinho.

Ele pediu R$ 3 mil a um grupo que está preso dizendo que era para dar ao PTB, se fosse R$ 3 milhões eu afirmo que era um pedido meu ao partido, mas os R$ 3 mil foi para ele.

Ele usou uma relação de proximidade com o PTB para ganhar R$ 3 mil, mas não tem nada a ver com o meu partido.

Folha do Estado – Já que os R$ 3mil para o Maurício Marinho não foram para o PTB, teve outras propinas que foram para a sigla?Roberto Jefferson – Não.

O acordo que eu fiz com o PT foi eleitoral.

Eu peguei R$ 4 milhões com os petistas para a campanha.

Foi de partido para partido, não dinheiro público.

Folha do Estado – Qual a participação do deputado Pedro Henry no mensalão?Roberto Jefferson – O Pedro Henry era um dos líderes daquele processo de cooptação de deputados.

Ele cooptou muitos deputados com o mensalão, fez o partido dele crescer muito com isso.

Inclusive ele tentou levar muitos deputados do PTB para o PP oferecendo vantagens financeiras.

E eu disse a ele: se você persistir nisso eu vou para a tribuna e denuncio o esquema de vocês.

Como eu não recebi mensalão para repassar à bancada do PTB, ela ficou muito vulnerável à tentação.

O pessoal do PL recebia do PMDB e do PP também, e eles ficava em cima da nossa bancada, questionando se a gente não iria receber os R$ 30 mil por mês.

Eu disse: aqui não, eu não vou alugar o meu partido, não vou comprometer o PTB, tanto que eu tive liberdade para denunciar.

.

.

mas antes de tornar a denúncia pública, eu falei para o (deputado) Miro Teixeira (PDT-RJ): “Miro, o governo está maluco.

Essa história de dar dinheiro a deputado é coisa de Câmara de Vereadores de quinta catigoria (sic), no fundo do plenário, no cafezinho só se fala em R$ 30 mil, R$ 40 mil.

.

.

“.

Falei isso ao Ciro (Gomes), falei ao Walfrido (dos Mares Guia), ao (Luiz) Gushiken, ao (Antonio) Palocci, ao José Dirceu, e em janeiro de 2005 disse ao Lula.

Eu não sou maluco de denunciar uma coisa que me envolvia.

Quando disse ao presidente, falei: “Presidente, vão botar uma bomba debaixo da sua cadeira, esse mensalão que estão distribuindo vai explodir, não tem quem guarde o segredo de 200, 300 homens”.

Aí você me pergunta: mas os R$ 4 milhões, vocês receberam? Eu digo, recebemos.

Eu tratei (R$) 20 (milhões), foi um acordo eleitoral de presidente do PTB para presidente do PT, nós somos entidades privadas.

O PT tinha R$ 120 milhões de caixa e anunciava isso na imprensa.

Quando nós fizemos o acordo para apoiar o PT nas eleições municipais de 2004 eu queria contrapartida para financiar meus candidatos a vereador e a prefeito no Brasil.

Fizemos um acordo de R$ 20 milhões, houve uma transferência de R$ 4 milhões nas vésperas da eleição, que não era mensalão.

Folha do Estado – Esses R$ 4 milhões foram ilegais?Roberto Jefferson – Não, foram de caixa 2, dinheiro sem recibo, sem documentação.

Dinheiro na mala que o Marcos Valério levou e eu recebi pessoalmente.

Folha do Estado – O senhor integrava a base de sustentação do governo Collor e sobreviveu ao impeachment, depois denunciou o mensalão e acabou cassado pela Câmara e denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Por que, depois de tanto tempo na Câmara, hoje está fora do cenário político?Roberto Jefferson – Eu fui cassado devido a uma brutal incoerência, perdi o mandato porque disseram que não consegui provar o mensalão.

Mas depois o procurador-geral da República afirmou que o esquema existiu e ofereceu denúncia ao Supremo Tribunal Federal, com provas que levantou junto à CPI.

Agora fui denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

As duas denúncias não tem nenhum fundamento.

Os recursos que o PTB recebeu foram na eleição de partido para partido, arrisco a dizer que cometi crime eleitoral porque recebi e não declarei à Justiça Eleitoral.

A acusação do procurador não tem sustentação.

É outro equívoco que se comete contra mim, porque o procurador foi nomeado duas vezes pelo Lula.

Ele bateu demais no PT, ele tinha que dar uma cravo e outra na ferradura.

Então, ele me denuncia, tenta me silenciar, porque como testemunha eu tenho que falar.

Folha do Estado – Por que o senhor acha que ele teria feito isso?Roberto Jefferson – Porque a burocracia do concurso público quer mandar mais que o poder político.

A burocracia do decoreba se acha mais do que a burocracia daquele que foi eleito.

Mas ele (procurador) é intolerante, autoritário, não gosta do povo, não anda na rua, não aperta a mão do povo, não aceita insulto.

Os políticos aceitam, os burocratas do concurso, não.

Na rua a gente lida com bicheiro, prostituta, gente de bem, mas um promotor não pode fazer isso.

Ele não aperta a mão de um mendigo, diferente do político, que tem que aturar todo mundo.

É isso, hoje o poder no Brasil emana do concurso público e não do povo e dos seus representantes eleitos.

Folha do Estado – O PTB pertenceu à base aliada de todos os governos desde a redemocratização de 1985.

No segundo mandato do presidente Lula, o senhor como presidente da sigla faz oposição, mas a bancada do partido na Câmara é governista, inclusive o líder do governo é o deputado José Múcio (PTB-PE).

Não é uma incoerência?Roberto Jefferson – É, mas a base do PTB faz oposição, somente a bancada apóia, mas isso já está mudando porque os deputados e senadores estão se frustrando com o governo.

À medida que isso vai ocorrendo eu vou trazendo para o meu lado, porque o meu projeto não é de curto prazo, é de longo prazo, e preciso ter a força junto à minha bancada para a sucessão presidencial de 2010.

É esperar com paciência e construir, pois eu não quero o PTB com o o PT em 2010.

Folha do Estado – O senhor denunciou o mensalão para se livrar do foco da corrupção nos Correios com o Maurício Marinho?Roberto Jefferson – É claro, porque eu estava sendo denunciado por um crime que eu não pratiquei, quiseram botar no meu colo um cadáver que eu não matei.

Mas antes de denunciar eu avisei ao José Dirceu, a ele e aos aloprados que até o último minuto tentaram me demover da idéia.

Eu disse a eles: “olha, eu não vou renunciar e vou para a luta com vocês.

Não morrerei de joelhos, eu tenho netos e tenho que olha-los nos olhos”.

Eles me propuseram renunciar à presidência do partido e dar ao Walfrido e eles nomeariam um delegado da Polícia Federal para me inocentar, porque eu não tinha nada com isso.

Eu disse a eles: “não, eu vou enfrentar.

Vocês me colocaram nesse rolo e eu vou sair pela porta da frente, por onde entrei”.

Não sou melhor do que ninguém, mas também não sou pior, eu não sou o campeão da ética, mas não sou vagabundo.

Não renunciei ao mandato e nem à presidência do partido e fui para a luta com eles.

Folha do Estado – O senhor foi cassado porque lhe faltaram amigos?Roberto Jefferson – Fui cassado porque o governo jogou para me matar.

Houve um grande acordo entre o PT e o PSDB para que queimassem as duas cabeças, a minha e a do José Dirceu.

Eu fiz o favor que o PSDB queria, desmontei a estrutura moral do PT, mas fiz sozinho, eles me usaram para isso, mas não me queriam como companhia.

Folha do Estado – O senhor pretende reverter a cassação?Roberto Jefferson – Não, eu vou esperar meu tempo, eu gosto mais de ser presidente do PTB do que ser deputado.

Deputado é um homologador de medida provisória, eu tneho horror, cansei.

Fiquei 24 anos na Câmara.

Eu gosto mais de construir o partido, isso que vim fazer aqui em Mato Grosso.

Ontem fui a Manaus e filiei o Amazonino Mendes, e depois vou a Alagoas ver o Collor.

Vou construir um grande partido.