Roberto Jefferson comenta fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour

PTB Notícias 13/07/2011, 16:54


Leia abaixo o artigo do Presidente Nacional do PTB, Roberto Jefferson, publicado no jornal Brasil Econômico nesta quarta-feira (13/07/2011):* Por Roberto JeffersonNo momento em que escrevo este artigo, a fusão das redes de supermercados Pão de Açúcar e Carrefour, que resultaria no já apelidado “Carrepão”, ainda é uma possibilidade, mas ao que tudo indica, sem a participação do BNDES, já que o governo da presidente Dilma recuou do endosso inicialmente dado à operação.

Que fique claro, desde logo, que nem eu, nem o Partido Trabalhista Brasileiro, nos incluímos entre aqueles ingênuos e idealistas que sonham com o capitalismo incipiente, dos pequenos estabelecimentos artesanais e do pequeno comércio dos pequeno-burgueses do século XIX.

Menos ainda somos daqueles que acham que o que é feio, pequeno e pobre tem virtudes intrínsecas.

Somos partidários do desenvolvimento e conscientes de que no mundo atual, empresas que adquirem certa escala conseguem produzir mais, comprar mais barato, vender idem, gerar mais empregos e investir em tecnologia.

Por isso, não somos contrários por princípio à formação de grandes grupos, desde que isso não implique na formação de empresas com tanto poder de mercado que prejudiquem a concorrência e usem seu poderio para manipular os mercados nos quais atuam.

É verdade que a fusão das duas redes envolve esse risco.

Mas não é o que mais me preocupa porque isso pode ser enfrentado de várias maneiras, entre as quais por meio da atuação dos organismos de defesa econômica, embora a regulação no Brasil ainda seja precária.

O que preocupa a mim e aos trabalhistas é a tal participação do BNDES.

Mesmo que nesse caso ela seja efetivamente arquivada, há o risco de que, numa outra ocasião, quando a opinião pública estiver menos atenta e não reagir com a clareza que reagiu neste episódio, o truque volte a ser tentado, já que no banco parece ser dominante, hoje, a ideia de que o grande é bom por princípio e compete à instituição promover, apoiar e eventualmente participar das operações que levem a isso.

O BNDES é um grande banco.

É maior do que o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a instituição de financiamento de exportações dos EUA, o Eximbank, somados.

Deve ser motivo de orgulho para todos os brasileiros.

Mas foi criado pelo presidente Vargas em 1952, então sem o “s” atual, com uma finalidade específica, que mantém até hoje.

O BNDES – mesmo sua controlada, a Bndespar, que em certas situações adquire participações minoritárias em empresas como forma de apoiar o seu desenvolvimento – não é um banco de investimento.

Se fosse, seria natural que investisse no crescimento do Pão de Açúcar.

A questão é que o BNDES é por definição um banco de fomento.

Não é uma formalidade.

Bancos de fomento têm uma atribuição específica e ainda extremamente necessária no Brasil, que é o financiamento do desenvolvimento, dos investimentos em atividades para as quais a iniciativa privada não dispõe dos recursos necessários, o que era mais comum há meio século, ou em empreendimentos de longo prazo, como os que envolvem desenvolvimento de tecnologia de ponta.

Seu papel é financiar o futuro.

Definitivamente, não é o caso de supermercados, até porque fomento não é fermento.

* Roberto Jefferson é Presidente Nacional do PTB