Senador Armando Monteiro alerta “A inflação é algo que preocupa “

PTB Notícias 19/04/2011, 10:04


“Qualquer política nesta área tem que ser avaliada pelos resultados que produz.

O Governo apostou muito agora em uma estratégia que combina não apenas a questão da política monetária – houve duas elevações de juros nas últimas reuniões do Copom -, mas também nas chamadas medidas macro-prudenciais.

Alguns economistas questionam a eficácia dessas medidas.

E o que são essas medidas? Em vez de apertar apenas o juro, se começa a restringir crédito, a elevar os depósitos compulsórios, que são recolhidos do sistema bancário, e medidas para desestimular o consumo, como aumentar a taxação de compras do cartão de crédito e até mesmo, no caso do Brasil, desestimulando algumas empresas que vinham captando recursos externos, pois havia uma compreensão de que essas medidas não vinham produzindo efeito, porque se adotam regras para restringir a expansão do crédito internamente, mas as empresas estavam tomando muito dinheiro lá fora.

No momento há uma deterioração nas expectativas inflacionárias, ou seja, há uma percepção geral de que a inflação está crescendo.

Isso é preocupante, porque nós poderemos ter uma situação este ano de ficarmos acima do teto que o Banco Central estabeleceu.

O centro da meta da inflação é 4,5%, o teto é 6,5%, e nós podemos ficar acima, o que é muito negativo.

E por que é negativo? Eu quero insistir nesta questão da indexação.

Os agentes econômicos, quando sabem que vai haver um aumento da inflação a 3,5%, 4%, eles repassam para os preços algo parecido com isso.

Quando a inflação começa a se descolar a 6,5%, 7%, eles já se protegem com 8%.

Depois tem alguns que já jogam 10%, e aí a inflação vai mudando de patamar”.

Crítica às autoridades econômicas”Há infelizmente um dado no Brasil que deve merecer uma crítica às autoridades econômicas do país.

É que durante o período em que a inflação estava ancorada no centro da meta, ou seja, bem comportada, 4,5% durante um período largo, era para o Brasil ter avançado no desmonte destes mecanismos de indexação que ainda estão presentes.

Não se desmontou os mecanismos de indexação e quando a inflação aumenta estes mecanismos a realimentam.

Temos vários índices.

Por exemplo, os aluguéis são reajustados pelo IGPM, os serviços educacionais pelo INPC.

Então, enquanto a inflação é 6,5%, na área de serviços já temos a inflação de 8,5%.

Ou seja, nós já estamos na área de serviços com uma inflação superior à inflação geral.

Este componente inercial da inflação no Brasil é algo extremamente preocupante.

Nós cometemos este erro.

Quando a inflação estava razoavelmente controlada, o Brasil deveria ter avançado no desmonte dos mecanismos de indexação.

Não fizemos isto, e portanto estamos agora sofrendo o efeito deste processo de indexação que ainda está presente no Brasil”.

O controle da inflação é uma conquista social”O brasileiro tem a consciência do que a sociedade conquistou, depois de anos e anos de instabilidade e descontrole inflacionário.

A questão da inflação é um valor social.

Não é nada de governos.

O brasileiro entendeu que com a inflação baixa ele pode planejar a sua vida, pode se organizar, pode planejar os gastos.

E quando a inflação sai do controle o que se tem é uma situação de imenso custo social, que é mal distribuído.

Os de menor renda são os que mais padecem, os que mais sofrem.

Então acho que independentemente do desconforto que algumas medidas mais duras possam acarretar, o fundamental é garantir que a inflação brasileira não saia do controle.

Este é o grande objetivo.

É claro que há uma série de questões de natureza técnica, mas é preciso também lembrar que as políticas fiscal, cambial e monetária se constituem num tripé e elas precisam ter uma ação coordenada e articulada.

Não adianta jogar a taxa de juros lá para cima e os gastos governamentais continuarem se expandindo acima do crescimento da economia.

Há o tal excesso de demanda, mas o governo faz a demanda também, porque o dispêndio governamental é parte disto”.

Gastos governamentais”Veja um dado curioso: a presidente Dilma anunciou um corte de R$ 50 bi e nós ficamos achando que isto vai nos colocar numa posição de certa contenção desta escalada dos gastos.

Veja que mesmo com o corte de R$ 50 bi na proposta orçamentária deste ano os gastos correntes ainda se elevarão 3% em valor real, comparado ao ano passado.

Nós vínhamos rodando, é bem verdade, com um crescimento real de até 10% dos gastos.

Trazer isso para 3% já é algo importante, mas ainda assim, mesmo com o corte, vamos ter um aumento de 3%.

Eu acho que se não houver uma ação coordenada e combinada nós podemos perder o controle deste processo.

Eu lembro por exemplo que o câmbio está ajudando em tese o controle da inflação.

Mas está prejudicando a indústria, matando os empregos no Brasil, porque há setores da indústria que não conseguem competir, tem industrial que está virando importador, ou seja, deixa de produzir no Brasil para importar da China e vender, o que significa que estamos gerando empregos lá fora.

Mas do ponto de vista da inflação este câmbio está ajudando.

Apesar disso, a inflação ameaça já em maio ultrapassar o teto da meta”.

Medidas do ex-presidente Lula”Sempre tivemos a preocupação de que a política monetária no Brasil era sempre muito restritiva, penaliza quem produz, onera o consumidor, mas é preciso que a política fiscal ajude no combate a inflação.

E é preciso que todos tenhamos a compreensão de que a pior de todas as situações é o Brasil perder o controle do processo inflacionário.

Quero lembrar que o presidente Lula, quando assumiu o governo, em uma conjuntura delicada, não exitou em adotar medidas impopulares como por exemplo uma forte elevação dos juros naquela época, com uma incompreensão de muitos setores ligados ao seu próprio partido, e graças a isso é que o Brasil pôde experimentar no período seguinte um processo de crescimento, de expansão da renda, de melhoria na distribuição de renda e de aumento real do salário mínimo”.

É preciso preservar as conquistas”O Brasil ganhou respeito na comunidade internacional e é destino hoje de capitais no mundo.

Veja o afluxo de poupança externa que o Brasil tem tido, não apenas a poupança especulativa, mas os investimentos diretos crescem porque o mundo inteiro reconhece que o Brasil oferece oportunidades fantásticas.

Agora, não há como negar que o Brasil ainda tem desequilíbrios sérios.

Nós temos problemas de custos logísticos, temos uma estrutura de custos tributários muito elevados, e temos na economia propriamente dois preços macroeconômicos, juro e câmbio, fora do lugar.

Juro alto e moeda muito valorizada, o que significa dizer que a importação fica barata e nossa exportação cara.

Então eu acho que é preciso muito cuidado na condução da política macroeconômica.

O Brasil avançou.

Todos sabem que nós precisamos ter uma política econômica responsável.

Não adianta demagogia, populismo.

A receita que o mundo consagrou é a de responsabilidade na área fiscal, de câmbio flutuante, e de uma política monetária que se articule com a política fiscal.

Precisamos ter cuidado na gestão da macroeconomia mas eu tenho muita confiança no Brasil, na capacidade do povo brasileiro, que é um povo que trabalha, que responde.

O Brasil apresenta produtividade muito alta em algumas áreas.

Precisamos todos cuidar para que as conquistas que foram feitas, e não foram fáceis, sejam preservadas”.

Agência Trabalhista de Notícias (PB), com informações da site so Senador Armando Monteiro